27/03/2015

Fotógrafos e fotos de Sete Quedas

          Viajei a Guaíra sempre em companhia dos melhores fotógrafos do Brasil; todos faziam freelances para a sucursal de Curitiba do Estado de São Paulo e Jornal da Tarde (fechado há poucos anos, lamentavelmente) ainda estão por lá, todos eles têm uma documentação valiosa das Quedas; poucos, entretanto, responderam ao meu apelo de colaborar com minha iniciativa de publicar neste blog algumas fotos que mostrassem o que a humanidade perdeu com a construção de Itaipu, que teve como desfecho o sepultamento das Quedas.
        O pedido ainda está com eles e espero que vasculhem os seus arquivos, recuperem o máximo de fotos que puderem; quando me mandarem, publicarei.
        Carlos Rugi, dos poucos que me atenderam, mandou-me três fotos maravilhosas das dezenas que ainda possui; estarei à espera de muitas outras. Américo Vermelho mora hoje no RJ, deve ter também uma coleção de preciosidades, desta vez consegui algumas poucas,ficou de enviar mais; Ivan Bueno ficou de ver e me mandar assim que encontrar em seus arquivos. Carlos Sdroievski deve ter outras, na última viagem que fiz a Curitiba não consegui encontrá-lo. E assim por diante... Irmo Celso continua meu amigo até hoje, não sei se ele tem fotos das quedas; desta vez não o contatei, mas com certeza me mandará o que tiver.
Deixo aqui um aviso geral aos meus leitores e amigos: quem fotografou as Quedas, ainda que por diletantismo me mande que eu publico. Vamos tentar trazer para este blog o maior acervo possível desse crime ambiental.


Fotos esparsas de Carlos Ruggi mostram as Quedas e o cânion em formação:



Américo Vermelho - Pescadores encontrados por acaso na Ilha Pavão tiram o couro de filhotes de sucuri, capturadas nas imediações da ilha:




Foto do Américo Vermelho – retorno da Ilha Pavão, sempre emocionante, mas não mais que o retorno da noite quando dois piloteiros resolveram apostar corrida, desviando-se de troncos e pedras:





 Fotos de Irmo Celso Vidor, hoje afastando-se da fotografia e tentando  a vida como advogado no interior do Paraná:










23/03/2015

O cânion abaixo das Quedas, maravilhoso!

        Estar ali parecia um sonho, pela beleza incomum ! Descemos esgueirando-nos pelos barrancos e fomos parar na boca do cânion que descia em direção às obras de Itaipu. O canal natural que recebia toda aquela imensidão de água que desabava nas Quedas tinha quando muito 350 metros de largura. Era impressionante o volume de água que não parava de chegar. Parecia estarmos em outro planeta. A paisagem era algo indescritível !
        A paisagem era dividida em duas partes distintas, lá em frente às Quedas
várias pedras enormes pareciam espreitar as águas que não paravam de chegar lá do alto, se apertarem para poder caber no canal que as levaria embora; pescadores do lugar contam que antes do início das obras de Itaipu, era comum jogarem ali naquele ponto linhadas da grossura de um dedo e saírem de perto; quando um daqueles peixes enormes ferrava uma das linhadas, ela podia esticar até arrebentar; se arrebentassem voltavam-se contra quem arremessou com violência letal. Disseram que já foram retirados da boca do canal jaús com mais de 300 quilos. Devagar, Itaipu acabou com a festa.
        Aliás, quando ali estivemos, os peixões já haviam desaparecido; Itaipu, 200 quilômetros abaixo do ponto onde estávamos, começou a construir um canal de desvio do Paranazão muito mais estreito que o canal natural. Nele, as águas se apertaram de tal modo que os peixes, que vinham lá debaixo, do Paraguai, não estavam conseguindo vencer a pressão. Vinham e voltavam.
        Conto em reportagens anteriores à inundação que os peixes em piracema faziam uma festa ali em Guaíra, eles chegavam aos milhares nos pés das Quedas, mas eram um obstáculo alto demais para ultrapassarem pulando, de modo que a população da cidade se mobilizava, pegava os peixes com as mãos e os levava em baldes para além das Quedas. Voltei a Guaíra algumas vezes depois da inundação; a cidade, hoje, lembra um cemitério das minhas lembranças, tudo muito triste.
        Ainda abaixo das Quedas, bastava descer um pouco acompanhando o canal para nos deslumbrarmos com mais belezas naturais; as pedras das bordas do canal ficaram pretas, mas de um negro que resplandecia com o sol; e um córrego de águas cristalinas cismou de encontrar-se com o turbulento Paranazão, formando uma cascata sobre o negro reluzente das pedras.
      Tiramos a roupa do Eli e o levamos, embaixo do calorzão da fronteira, para tomar um belo banho naquela cascata, condenada ao desaparecimento. Quando via as fotos do meu filho (infelizmente desaparecidas) se esbaldando de felicidade embaixo daquelas águas cristalinas sentia vontade de chorar.

(Peixe em piracema subindo um rio  aos pulos)

20/03/2015

Lembranças da Ilha Pavão, magnífica!

        Desta vez, levei minha mulher, Susana, e meu filho, Eli, então com três anos de idade. O fotógrafo era um até hoje grande companheiro, Américo Vermelho. Foi uma viagem sugerida e aprovada pelo Suplemento de Turismo do Estadão.
        Sete Quedas estava para ser afogada pelo Lago de Itaipu e nós, da Sucursal de Curitiba, nos desdobrávamos para mostrar aos leitores do jornal todo o impacto da tragédia. Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo, estava em construção acelerada e seria a grande obra do regime militar instaurado no país alguns anos antes, mais exatamente no mês de março de 1964, na verdade, dia primeiro de abril daquele ano, mas temendo que os brasileiros associassem a “revolução” com o “dia da mentira”, as comemorações ao golpe foram antecipadas para março.
        Havíamos feito amizade com um historiador da cidade  que nos disse para não deixar de conhecer a Ilha Pavão, um lugar encantador, nos dizia, com acerto. Era bem mais de meio-dia quando saímos de Guaíra, de barco, subindo o Paranazão. Nosso destino ficava a mais de uma hora do portinho de Guaíra navegando contra a correnteza. Demos uma parada a mais de quarenta quilômetros acima para visitar, rapidamente, uma das ruínas jesuíticas de uma redução erguida ali e que teve de ser abandonada com a chegada dos Bandeirantes. O nome “ruína” se aplica ao que enxergamos – ali não foi deixada muita coisa, a não ser vestígios do que há muitas décadas foi um local com igreja, escola e tudo mais que os índios construíram.
        Mais meia hora de barco rio acima e chegamos à llha Pavão. A ilha se apresenta aos visitantes logo no desembarque, quando avistamos árvores imensas nascidas naquele pedacinho de terra em meio àquele marzão de água. Surpresa ainda maior veio ao percebermos que era possível caminhar por aquele pequeno pedaço de mata atlântica sobre uma areia branca, especial. Tudo lembrava um recanto paradisíaco repleto de encantos para onde olhávamos.
        Até hoje não sei que fim levou a Ilha Pavão, me diziam que ela se localizava alguns quilômetros acima da extremidade do lago de Itaipu. Sei que tenho gratas lembranças de tudo que vi e curti por lá.
        Encontramos morando na ilha, como zeladora do patrimônio ali instalado, uma senhora com uma penca de filhos que havia sido abandonada pelo marido. Uma de suas filhas, uma garotinha de dez anos, encantou-se pelo Eli, que já andava solto e feliz pela Ilha como um serelepe. Gostei da aplicação da menina e disse:
        - Olha Rose, se sua mãe permitir vamos levá-la para Curitiba para olhar o Eli...
        E foi só. Na hora de viajar de volta, antes de embarcarmos, lá estava Rose com sua malinha pronta e disposta a me fazer cumprir o prometido. Rose morou conosco mais de dois anos e talvez por problema de comunicação tivemos de levá-la de volta. Foi embora com um grande patrimônio que deve ter feito a diferença em sua vida: foi alfabetizada – e muito bem – com direito a muitas aulas de reforço proferidas por minha mulher, Susana, que passava então por sua segunda gravidez. (Confesso que temos muitas saudades de Rose e se algum de meus leitores tiver notícias dela, por favor me passe. Ela foi deixada de volta numa residência de Guaíra, na casa de uma tia.)
        Fomos ficando, ficando na ilha sem nenhuma vontade de ir embora, perambulamos por lá, tomando uma deliciosa pinguinha servida pela mãe da Rose, cujo nome nem eu e nem minha mulher conseguimos lembrar. A surpresa foi vermos um pirangueiro limpando três filhotes de sucuri, de mais de três metros cada um num recanto da ilha, com um baixio onde se podia molhar os pés numa beiradinha de rio. Havia pegado as cobras a 15 minutos de barco abaixo da ilha.
        Eu pedi à mãe da Rose se ela podia preparar uma jantinha básica para nós e diante da resposta afirmativa nos abancamos da Ilha Pavão. A prefeitura de Guaíra, estranhando nossa demora, mandou outro pirangueiro atrás dos jornalistas. Este nos encontrou lá jantando um belo frango caipira, tomando uma cervejinha, felizes da vida e sem nenhuma vontade de voltar. Servimos frango para o segundo barqueiro e ele com a cara de quem havia cumprido sua missão foi ficando também, feliz como todos seus passageiros.
        O retorno foi emocionante; os dois piloteiros saíram bem dispostos e resolveram apostar uma corrida à noite em grande velocidade. Ambos conheciam aquele trecho do rio como a palma da mão. Desviaram de pedras, de troncos. Chegamos a Guaíra em tempo recorde e com a sensação de termos feito uma viagem segura, emocionante, mas segura. Fomos para o hotel e eu já havia escolhido a pauta da próxima viagem que iria fazer a Guaíra: traçar um bom perfil daquele personagem condenado a desaparecer junto com Sete Quedas – o pirangueiro.
        Ainda não contei a visita que fizemos ao cânion abaixo das Quedas, não percam o próximo capítulo...


(Desenho apenas ilustrativo)

18/03/2015

A Dilma, mídia, os protestos, os ministros, etc.

           Dilma sai da toca – Muitas horas depois da onda de protestos pelo país, a presidenta, com muita cautela, aparentando estar pisando em ovos, discursou em evento realizado próximo de sua toca, o Palácio do Planalto, deu uma disfarçada e falou daquilo que sua língua estava coçando para dizer – dos protestos. E o que ela disse? Mais do mesmo, ou seja, repetiu a lenga-lenga de sempre, que seu governo transpira democracia por todos os poros, etc. etc. O mais importante é notar o quanto a presidenta ficou sem discurso, absolutamente sem discurso, e não há marqueteiro que dê jeito...
           Os ministros “porta-vozes” do governo – Antes de Dilma, dois de seus ministros – o da Justiça, José Cardozo, que começa a ser chamado de Cardozão, numa referência popular às trapalhadas que apronta, e o desconhecido e arrogante ministro-chefe da Secretaria Geral, Miguel Rossetto, haviam saído também da toca para tentarem dar uma satisfação do governo ao público; melhor seria para Dilma que tivessem permanecido na toca. Fizeram promessas de coisas já prometidas e até agora não cumpridas – reforma política, pacote contra a corrupção. E o até agora obscuro Miguel deu uma explicação bem idiota para as grandes multidões que foram às ruas no domingo: “A grande maioria de quem estava lá não votou na Dilma”. Fiquei me coçando para perguntar a ele: e daí ministro? Que importância isso tem para o resultado final do que aconteceu naquele memorável 15 de março? E se fossem todos eleitores de Levy Fidelis? Havia catraca na porta de entrada da Avenida Paulista para impedir o acesso de eleitores da Dilma?
            Mercadante, cadê o Mercadante? – Enquanto isso, depois da lambada que levou de Marta Suplicy, o ministro da Casa Civil, Aloísio Mercadante, tomou chá de sumiço. Escondê-lo foi uma dessas raras atitudes inteligentes da nossa ilustre presidenta, que pelo visto, deveria dar do mesmo chá para Miguel e o Cardozão.
            Mídia brasileira e os protestos – Antes de dizer qualquer coisa sobre amaneira que a mídia brasileira cobriu as manifestações de domingo, gostaria de sugerir calcularmos o número de assinantes da Folha de S. Paulo pelos mesmos critérios que este vetusto jornal paulistano usou para calcular o número de pessoas que compareceram à passeata da avenida paulista no domingo. Creio que o número de assinantes não passaria de meia dúzia. Mas vamos falar um pouco da cobertura da TV. A Globo entrou claudicante no assunto e claudicante ficou até o fim. O mérito da líder de audiência foi ter apresentado uma estimativa de público para a concentração da Avenida Paulista semelhante à da PM, que desta vez bateu com a previsão dos organizadores – de pouco mais de um milhão de pessoas.
             Incoerência na multidão – Boa parte das pessoas que foram às ruas no domingo protestar contra a corrupção, usava camiseta amarela da CBF, sem ligar para o fato de que a CBF é um dos grandes símbolos da corrupção no país.
            Enquanto isso, pelo Brasil afora – Terça-feira de manhã, ladrões levam uma carga de 14 toneladas de dinamite que estavam sendo levadas de caminhão, sem escolta, do interior de São Paulo, para uma mineradora de carvão em Criciúma, Santa Catarina. Os jornais informaram que o motorista do caminhão estava mancomunado com a quadrilha – Força Nacional de Segurança segue para o Rio Grande do Norte para tentar deter a onda de rebeliões em vários presídios do estado. Resumo da história: todos os presidiários do país devem estar se perguntando: porque só nóis, uai?

 
José Cardoso (Cardozão)

16/03/2015

Anéis ou a cabeça?

        Parece que estou vendo, o Lula com sua voz rouca chegando à Dilma para dizer:
        - Companheira, fodeu ! Vamos entregar os anéis para não entregarmos nossas lindas cabecinhas ! 
        Se Dilma sofrer impeachment, o que ainda é improvável, o processo político entrará em eclipse total, num processo desta vez muito lento que vai depender da boa vontade de um Congresso multifacetado, onde vários pequenos partidos, muitos fisiológicos, detêm o poder.
        Estas ultimas eleições tornaram tudo muito difícil e complexo. A única saída é o povo voltar a exigir “mudança já” e, apesar da distância, cercar o Palácio do Planalto, como ocorreu na Argentina , abreviando o processo e ameaçando invadi-lo, o que não é algo totalmente improvável depois dessa mobilização-monstro observada neste domingo, dia 15 de março de 2015.
        Na prática, já ocorreram coisas sintomáticas neste início de segundo mandato de Dilma, que já passou para a história como a mais incompetente figura política a ocupar o maior cargo da República. Dilma cometeu erros atrás de erros. Refugou uma grande indicação de Lula para conduzir a economia – o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, certamente por ser um quadro do PSDB – e apostou todas as fichas no obscuro Guido Mântega, tão inábil que se fica no cargo por mais esse mandato teria destruído o Plano Cruzado.
        Manteve esse número assustador de ministérios, uma draga poderosa a jogar fora os recursos nacionais. Teve ao ser eleita para um segundo mandato sua grande chance de enxugar a máquina pública, mas ignorou o clamor dos empresários e manteve tudo o que herdou de seu padrinho político, Lula, esquecendo-se de que governaria num período de vacas bem mais magras.
        Nomeou como seu articulador político o homem que deveria ser proscrito da política brasileira, Aluísio Mercadante, depois de ser pego em flagrante na divulgação de um falso dossiê contra os tucanos paulistas; por último, saca do bolso do colete um ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que mais parece um trator esteira num momento em que a economia exigia a leveza de uma asa delta.
        Preparem-se todos, teremos pela frente muita turbulência.

10/03/2015

O dia que quase mergulho nas Sete Quedas

        Era época de cheia no Paranazão e eu, ao lado do fotógrafo Carlos Rugi estávamos em Guaíra, nas barrancas do rio, à procura de grandes aventuras. Quem procura acha, diz o velho e sábio ditado.
        Achamos! Fretamos um barco, que dada as dimensões do rio naquele ponto – 24 kms de largura – não passava de uma simples canoa, e lá fomos em direção à Sete Quedas que naquela distância podíamos identificar por uma nevoazinha que se sobressaía na superfície da água. Acho que foi, tanto minha quanto do meu companheiro, nossa primeira aventura perigosa, pois nos esquecemos de tudo – de levar água potável, de avisar alguém para nos socorrer se começássemos a demorar além da conta; de levar algo para nos proteger do sol, sobretudo eu que tenho a pele branca como esparadrapo. Quer dizer saímos do portinho em Guaíra como quem sai de casa para dar um pulo até a esquina e voltar logo.
Ah, ia me esquecendo, viajava conosco na aventura um sobrinho da minha mulher, Sérgio Agostinho, de 14/15 anos.
        O objetivo era ver de perto as ilhotas cravadas no topo das Quedas pois todos os pirangueiros que havíamos conhecido até então falavam muito nelas, nas ilhas, nos enchendo de curiosidade. Pirangueiro era o alvo daquela minha reportagem por ser um personagem típico da região, que vivia da pesca e da navegação, que iria desaparecer junto com as Quedas. O lago de Itaipu está mais para mar sem tempestade, sinuosidade, dispensando a grande perícia de antes.
        Quase não podíamos conversar enquanto caminhávamos, felizes, pela Ilha do Luís – a explosão contínua das águas desabando no Salto 14, o mais imponente deles, abafava o som de vozes enchendo de magia todo o lugar. Caminhamos por ali uns 30 minutos e ao embarcarmos de volta colhi um mamãozinho, de vez, de um pé à beira do trilho por onde passávamos, tomando cuidado com cobras, aranhas e outras peçonhas.
        Embarcamos e viajamos de volta, não sem antes arriscar a vida num zig-zag que Luís improvisou na cabeceira das Quedas para nos encher de espanto e admiração. Foi uma das paisagens mais lindas que já tinha visto na vida e que jamais esquecerei.
        Em mais alguns minutinhos, começamos a voltar; navegamos quando muito 400 metros acima da Ilha do Luís, quando o motor do barco, sem aviso nem nada teve um estremilique e pifou. Só aí senti a força da correnteza das águas do Paranazão nos puxando para baixo; até o experiente Luís levou um susto e gritou “joga a poita, joga a poita!” Não precisou gritar mais de duas vezes. O garoto Sérgio estava mais próximo do que ele chamava de poita e obedeceu rapidamente, atirando dentro da água um gancho de ferro de construção amarrado firme na ponta de uma corda.  A corda estava amarrada dentro do barco, de modo que lá ficamos, amarrados e seguros. Seguros?
        Toda a sensação de segurança se esvaia num piscar de olhos quando um de nós tirava uma das mãos para fora do barco e a mergulhava dentro d’água apenas para sentir a força da correnteza; naquele ponto as águas do Paranazão pareciam ter força para tracionar uma carreta carregada de peixes sendo levada para o Ceasa. “Se o barco virar – nos pedia o irônico Luís – nadem na direção daquela ilha” – e apontava para uma daquelas ilhotas a pelo menos um quilômetro de distância, certamente supondo que eu não nado bem sequer em piscina de criança. Coisa de fdp, imaginei silenciosamente.
        Foi quando Luís começou a desmontar o carburador pela primeira vez. Levou uns quinze minutos para desmontar, mais uns dez para assoprar com força cada um dos caninhos internos e outros dez para montar peça por peça. E nós obrigados a ficar olhando feitos três bobos, pois qualquer movimento que fizéssemos podia atrapalhar. Terminada a montagem do carburador, tivemos de vê-lo puxar com força o cordão da partida umas cinquenta vezes até desistir. Ele então deu início à segunda desmontagem. 
        Bateu sede. Lembrei-me então do pequeno papaia que estava à nossa espera a um canto do barco; já havia percebido que tínhamos de beber a água farta do Paranazão. O problema a ser vencido era logístico, parti o pequeno mamão e tirei a polpa com os dedos. Antes que a fome começasse a bater (o Luís, como já disse, era mais esculhambado que seus passageiros e, portanto, não levava em seu barco nenhuma porra de uma bolacha) comemos o miolo do mamão repartindo tudo fraternalmente.
        Eu já havia descoberto que a pressão da correnteza não permitia que colhêssemos água com as mãos, além dos cuidados que precisávamos ter com o equilíbrio do barco. Usamos, portanto, as duas cascas do papaia como nossos copos. Nunca vi um papaia ter tanta utilidade como esse.
        Luís começou a desmontar o carburador pela segunda vez e enquanto fazia isso falava coisas terríveis:
        - Olha gente, se o motor não pegar teremos de passar a noite aqui!
        Tomamos algumas providências, como tirar a camisa e acenar com elas para as embarcações que passavam nos arredores do portinho. Eu fiquei mais olhando do que participando daquela estupidez, pois as chances de alguém nos ver naquela distância eram as mesmas que reencontrar uma agulha atirada na imensidão daquelas águas do imenso rio Paraná.
        Já havia começado então meu segundo drama, sentia que minha pele fritava como torresmo com aquele sol implacável. Tive queimaduras fortes que me deixaram entrevado por três dias em quarto de hotel. Só aconteceu comigo: meus dois acompanhantes e o piloto estavam com roupas bem mais adequadas que eu, além de se serem mais morenos.
        Sua tripulação já estava desesperançada, apenas Luís ainda insistia em desmontar e montar o bendito carburador;  ele, provavelmente por experiência, sabia que uma hora qualquer o motor responderia. Eu só tomava cuidado com o pavor, mas meus pensamentos voavam e aterrissavam em casa, onde deixara minha linda mulher, Susana, e meu primeiro filho, Eli, então com três anos de idade. Estava morando em Curitiba e se descortinava para mim uma nova e empolgante vida profissional. Era muito cedo para morrer, pensava. Mas, quis o destino que eu me enfiasse naquela enrascada, contra a qual eu nada podia fazer a não ser rezar. E o pior: levara comigo um sobrinho da mulher!
        Bom, na sexta vez que Luís desmontou e montou a porra do carburador, o motor pegou! Pegou e pegou firme nos tirando dali, do sufoco e do desespero em cerca de dez minutos.



Um barco com turistas fica pequeno perto da queda d’água Horseshoe Falls, a maior das Cataratas do Niágara, na fronteira entre Estados Unidos e Canadá.
Foto: JOHN MOORE / AFP

05/03/2015

Sete Quedas, sete tiros... E fim!

        Estou entre os poucos e privilegiados jornalistas que conheceram – e bem – as maravilhas de Sete Quedas, que as águas do lago de Itaipu apagaram da face da terra talvez para sempre; digo talvez porque havia uma possibilidade de que no dia em que o país pudesse dispensar a energia da ex-maior hidrelétrica do mundo, ou uma parte dela, o lago poderia ser eliminado pelo menos em parte e os saltos pudessem reaparecer tão majestosos quanto já foram.
        Hoje, há pouca esperança que isso possa acontecer. De medo que o movimento ambientalista forçasse a barra e resolvesse fazer encolher Itaipu antes da hora, os militares – os donos da bola na época – tocaram dinamite dentro d’água para descaracterizar os saltos, a pretexto de eliminar a ponta das pedras que poderia atrapalhar a navegação, quer dizer não havia nada ali que uma boa sinalização não pudesse resolver; a imprensa conseguiu deter a loucura com uma certa demora e hoje as águas do lago escondem um mistério: até que ponto os saltos foram destruídos? Seria um bom desafio para mergulhadores descobrir o tamanho do estrago. Um programa do tipo do Fantástico poderia liderar e patrocinar a exploração aos fundos do rio Paraná.
        Era tudo imponente. Eu conheci as quedas abaixo e acima dos saltos. Para quem não teve a mesma felicidade que eu vou contar um pouquinho do que vi por lá antes de virar a aquele mar “sem graça” em que o local se transformou.
        Acima dos saltos, o rio Paraná se esparramava a mais não poder. Chegava a ter nas cheias 24 quilômetros de largura, separando, do lado brasileiro, os estados do Paraná e Mato Grosso do Sul. Do outro lado, o rio cortava uma ponta do Paraguai. Sete Quedas ficavam dentro do município de Guaíra, no Oeste do Paraná.
        Aquela imensidão de água, de repente, começava a confluir para o meio até desabar, com grande estrondo, nos imensos taludes. Os saltos eram bem mais de sete, mas o nome surgiu lá atrás quando nem se cogitava destruí-los.
        Toda aquela imensidão de água dali para baixo corria por um cânion de duzentos e poucos quilômetros de comprimento e nada mais de 350 metros de largura; lá embaixo, o turbilhão de água foi barrado até formar o lago de Itaipu que encobriu uma das maravilhas do mundo.    Itaipu começou a ser erguida em 1979 e concluída em 1982. 

        A poucos dias da inundação começou a aparecer pelos muros de Curitiba um poema anônimo que dizia:"sete quedas sete tiros. E pum!"
        Ainda tenho muita coisa para contar sobre as quedas que vi e amei, mas deixemos para o próximo capítulo.


02/03/2015

Projeto Água, uma iniciativa que se perdeu

        Editei e dirigi, pela Gazeta Mercantil, no início da segunda década do século, um projeto que até hoje me enche de orgulho, um dos belos trabalhos que realizei durante minha carreira de jornalista: chamava-se Projeto Água e consistiu na edição de sete cadernos temáticos sobre a questão da água doce, que começava a emergir então como um dos mais graves problemas deste Século. Uma pena que os cadernos tiveram circulação restrita, pois ficaram confinados à região da grande Campinas. Mereciam ter circulação nacional.
        Assumido com entusiasmo por toda a equipe do Planalto Paulista – nome que demos ao jornal regional que circulava diariamente na região da grande Campinas, encartado na Gazeta – o Projeto, com essa bela antecedência de quase 15 anos, escancarou ao público as grandes feridas do problema que ainda recentemente começaram a sangrar impiedosamente sobre a população do estado de São Paulo. E o fez de modo contundente, como recomenda o bom jornalismo. Para mostrar o desperdício de água tratada, por exemplo, mostramos a situação esdrúxula de dois municípios – Campo Limpo e Várzea Paulista – onde a água que faltava na torneira do segundo era aquela que se perdia na rede em frangalhos do primeiro.
        A região estava, em caráter pioneiro, implantando o primeiro órgão de gestão da bacia dos rios Capivari/Piracicaba, mas o fazia de modo errado, entregando ao governo do estado a principal responsabilidade pelo controle do comitê gestor. O Projeto Água organizou também um seminário onde especialistas corroboraram a tese de uma especialista da Unicamp que havia sido contratada pelo Planalto Paulista e que escreveu artigos para os cadernos temáticos mostrando que, a exemplo do que havia ocorrido na  França, país precursor de estruturas modernas para gestão da água doce, todos os comitês de bacia administrados pela instância superior fracassaram. Foi o Projeto Água, portanto, que afastou o governo estadual do controle do primeiro comitê de bacia e entregou à comunidade, embora o desenho final da estrutura ainda passasse longe do modelo francês, que o Projeto apontou como “ideal”.
        O Projeto disparou um novo comportamento da indústria, acelerando providências pelo uso racional da água doce. Foi ele que introduziu o uso mais intensivo da água de reuso pela indústria e alertou os grandes consumidores de água doce para a fragilidade do sistema de abastecimento, deixando todos inquietos numa inquietude transformadora. Quem tinha fábrica na região-alvo do Projeto saberá dizer da sua importância para introduzir mudanças de comportamento.