24/10/2016

PRIVATIZAÇÃO À MODA PT

        Nada contrariou mais o PT e os “ideólogos” do partido do que a privatização da Vale do Rio Doce, chamada de a “Joia da Coroa” por Gustavo Franco, um dos capitães da desestatização no Governo de FHC.
        No dia da privatização (07 de maio de 1997), houve protestos em várias capitais do país e a Praça XV, defronte à Bolsa de Valores do RJ, onde foi realizado o leilão para venda da mineradora, virou campo de guerra; nada menos de 600 policiais tiveram de ser convocados para aplacar o ânimo de 4 mil manifestantes exaltados. Mais de 50 pessoas ficaram feridas.
        Uma das fortes agitadoras da época foi a advogada curitibana Clair da Flora Martins, ex-presa política do regime militar, ex-vereadora e ex-deputada federal pelo PT do Paraná, que em entrevista a uma revista jurídica explicava as causas de tanta indignação: “...podemos dizer que sem a posse da Vale do Rio Doce, devemos tirar a cor amarela da nossa bandeira”....e acrescentou: “...foi um terrível sentimento de perda e de revolta por nosso país estar sendo vendido”.
        A quase 20 anos após a privatização ter sido consumada, as pessoas que engrossaram as vozes de protesto devem ter descoberto que as privatizações não são um mal em si mesmas e que na grande maioria dos casos só fizeram bem ao país; deveriam ter descoberto também que quem pratica o mal contra o Brasil são os maus brasileiros e estes estão por toda parte, inclusive no comando da Vale “privatizada”.
        Os maus brasileiros que se encontravam em postos-chave do governo na “Era PT”; os maus brasileiros que impregnam o Congresso Nacional (Câmara e Senado) e os maus brasileiros que impregnam setores empresariais estratégicos, como o da Mineração – estes sim representam o  grande mal  do país!
        As privatizações ocorridas com grande força no governo de FHC apenas livraram o estado brasileiro da carga pesada e permitiram que a economia do país fluísse com mais desenvoltura.
        Se a Petrobras tivesse sido também privatizada não teríamos assistido à roubalheira que abalou a economia brasileira na última década!

PRIVATIZAÇÃO À MODA PT

        O problema é que existe a privatização à moda PT, ou seja, abrem-se as portas da empresa para o capital privado, mas mantêm-se todas as mamatas – a mamata dos políticos, a mamata dos representantes do governo, a mamata dos órgãos governamentais.
        Neste sentido, a Companhia Vale do Rio Doce passou a representar, depois de “privatizada”, a mais perfeita síntese do papel que os maus brasileiros de todos os matizes exercem nesse trabalho diuturno contra os interesses da sociedade brasileira.
        Primeiro foi a relação promíscua que a Vale privatizada estabeleceu com o governo do PT. Roger Agnelli, um executivo que prometia administrar a companhia com independência e profissionalismo, foi varrido do cargo e da empresa por pressão de Dilma Rousseff, agindo sob orientação de seu guru e criador Luiz Ignácio LULA da Silva (2011).
        O caminho estava aberto para a privatização à moda PT; a dívida da Vale com a Receita Federal continuou aumentando e, em 2015, ela já era o maior devedor de impostos do Brasil, tendo como parceiros dessa vergonha nacional a Petrobras e a Caritat (antiga Parmalat).
        Ameaçam a população com mais impostos, ameaçam reduzir ainda mais o valor das aposentadorias, mas ninguém age com energia para cobrar o débito dos 500 maiores devedores da receita, cujo passivo soma hoje a mais de um trilhão de reais.
        A classe política também poderia contribuir com a criação de leis mais efetivas para instrumentar a Receita Federal, mas não age e a razão é até simples: uma empresa endividada é uma fonte inesgotável de propinas e dinheiro sujo.

         Assim é com a Vale do Rio Doce.

RASTRO MAL CHEIROSO

        Torço para que meus netos e bisnetos não precisem sentir a mesma  vergonha e indignação que eu mesmo estou sentindo ao tomar conhecimento da longa denúncia que o Ministério Público Federal ofereceu à Samarco nesta penúltima semana de outubro de 2016.
        Como todos já sabem, a Samarco, um conglomerado de brasileiros da pior espécie montado pela Vale  em Sociedade com a australiana BHP Billinton para explorar o minério de ferro da região de Mariana (MG), foi uma das grandes responsáveis pelo derrame de lama no Vale do  Rio Doce no dia 5 de novembro de 2015.
        A denúncia é longa e quem tiver estômago deve lê-la na íntegra. Nela, nada menos de 21 integrantes da cúpula dirigente da Samarco são denunciados por homicídio qualificado com dolo eventual por terem provocado a morte de 19 pessoas e destruição arrasadora de recursos naturais do Brasil, numa extensão que vai de Mariana até o mar, a cerca de 500 quilômetros à frente.
        Nunca se viu uma denúncia tão bem fundamentada quanto esta no chamado direito ambiental. Há nela provas irrefutáveis de que a empresa tinha perfeita consciência da instabilidade das barragens de rejeito rompidas (Fundão) e que até já havia calculado, com precisão, o número de pessoas que o rompimento iria matar, bem como toda a extensão dos danos ambientais.
        A Samarco, entretanto, empurrou tudo com a barriga até o rompimento; ela mesma foi exaustivamente advertida dos riscos pelos relatórios internos. Mas mirou apenas e exclusivamente nos lucros e foi improvisando aquilo que os procuradores chamam de “puxadinhos geológicos” e “esparadrapos estruturais”.

É TUDO VERGONHOSO

        Vejam que interessante a matéria divulgada pelo repórter Felipe Amorim, do Site Noticioso UOL: “Deputados que vão apurar tragédia em Mariana receberam R$ 2,6 milhões da Vale”.
        Explico: três comissões parlamentares foram criadas para acompanhar o rompimento das barragens de mineração na região de Mariana. Na Câmara dos Deputados, 13 dos 19 membros da comissão externa instalada para acompanhar e monitorar os desdobramentos do desastre ambiental foram beneficiados por doações de empresas ligadas à Vale, em valores que vão de R$ 465 a R$ 500 mil.
        Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, cinco dos nove membros titulares da comissão extraordinária criada na primeira quinzena de novembro foram beneficiados com doações do grupo Vale, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
        As contribuições de campanha aos integrantes da comissão somam R$ 368 mil.
        Já na Assembleia Legislativa do Espírito Santo, outro estado cortado pelo Rio Doce – ainda segundo informações de Felipe Amorim – as empresas do grupo Vale doaram R$ 428 mil a sete dos 15 membros da comissão representativa criada para acompanhar os impactos ambientais da tragédia.
        Na comissão criada na Câmara, tiveram gastos de campanha bancados por empresas ligadas à Vale os deputados Laudívio Carvalho (PMDB-MG), Gabriel Guimarães (PT-MG), Leonardo Monteiro (PT-MG), Paulo Abi-ackel (PSDB-MG), Rodrigo de Castro (PSDB-MG), Paulo Foletto (PSB-ES), Eros Biondini (PTB-MG), Mário Heringer (PDT-MG), Subtenente Gonzaga (PDT-MG), Fábio Ramalho (PV-MG), Brunny (PTC-MG), Givaldo Vieira (PT-ES) e Lelo Coimbra (PMDB-ES).
        Na assembleia mineira, Agostinho Patrus Filho (PV), Thiago Cota (PPS), Gustavo Corrêa (DEM), Gustavo Valadares (PSDB) e Gil Pereira (PP).
        Na Assembléia Legislativa do Espírito Santo, foram beneficiados Guerino Zanon (PMDB), Janete de Sá (PMN), Rodrigo Coelho (PT), José Carlos Nunes (PT), Gildevan Fernandes (PV), Bruno Lamas (PSB) e Luzia Toledo (PMDB).

* Precisamos expulsar a Samarco da mineração brasileira. Assine o abaixo-assinado  pelo link:

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Manifestação no dia do leilão da Vale do Rio Doce:






Desastre em Mariana:




18/10/2016

Andrews: minha amiga Tonica Chacas pegou o “monstro” lá em cima!

        Eu não sabia, mas o mesmo furacão que me atacava num hotel de Miami em fins de agosto de 1992 (ver meu relato em post anterior, neste blog) atacava o Jumbo que trazia minha amiga Tonica Chagas de Nova Iorque a São Paulo. Ela talvez também não saiba que eu preferiria enfrentar minhas oito horas de tensão em terra do que a sua meia hora de pânico lá em cima, a 11 mil metros de altura.

Veja o relato de Tonica Chagas:

        “...Quando começamos a sobrevoar o Triângulo das Bermudas, pensei que minha hora havia chegado! O ”Jatão” começou a corcovear, o piloto avisou que enfrentávamos uma turbulência e informou que havia pedido autorização para mudar de rota... O avião jogava pra um lado e pra outro, tudo ao mesmo tempo...
        Olhei para trás e vi as aeromoças amarradas e agarradas naqueles banquinhos delas... os compartimentos de comida se abriram e era carrinho "skateando" de um lado pro outro, no movimento imitado pelas cabeças dos passageiros; fechei os olhos, me agarrei no encosto do meu assento e comecei a rezar...
        O medo era tão grande que eu desmemoriei... a única coisa que restou na memória foi o padre nosso em latim que havia aprendido com as freiras, no primário...
        Quando a fuzarca sossegou, o comandante mandou servir bebidas pra todo mundo! Eu que detesto uísque, mandei um copão, cawboy, de um soco só!
        Sucumbi em dois minutos e assim fiquei, desacordada, por várias horas; quando acordei, o casal do banco ao lado me contou que havíamos enfrentado mais uma mega turbulência... Só ao chegarmos ao Brasil é que nos informaram que havíamos sobrevoado o tal furacão Andrews”.


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Desastre de Mariana

12/10/2016

"Três brasileiros perdidos dentro do mega furacão Andrews"

        Final de agosto de 1992... No aeroporto de Miami, duas horas antes de tomarmos o avião de volta ao Brasil, uma garota já ostentava a camiseta com a frase: “Eu sobrevivi ao Andrews”.
        Nos identificamos imediatamente com ela. Eu e meus dois companheiros de viagem – Sérgio Munhoz e Felipe Batzli – tínhamos enfrentado também, oito dias antes, a fúria de um dos mais devastadores furacões que atingiram os EUA, o Andrews.
        O Mattheus, que devastou o Haiti neste início de outubro de 2016 na categoria quatro, matando mais de 1.000 pessoas, chegou à Flórida na categoria três e perdeu mais intensidade ao seguir para a Carolina do Norte, onde virou ciclone tropical.
        O Andrews entrou na Flórida já na categoria máxima (nível cinco) com ventos que alcançaram 278 quilômetros por hora. Foi coisa do demônio!
        Nós três éramos funcionários da Agência Estado (empresa do grupo do jornal O Estado de São Paulo) e tínhamos viajado de Miami para Fort Myers, ainda na Flórida, para participar de um congresso da Knight Rider, nossa parceira americana. Chegamos para o congresso num domingo e voltamos para Miami na quarta-feira; eu tinha ainda o compromisso de conhecer o sistema de fotografia do Miami Herald, já totalmente informatizado.
        Foi apenas no sábado, tarde da noite, que ouvimos falar pela primeira vez que um furacão vinha na direção de Miami. Sérgio Munhoz perguntou a uma das balconistas de uma perfumaria se a  loja abriria no domingo e ela respondeu assim:
        - Acho que a loja vai ficar fechada por vários dias, porque um furacão está a caminho de Miami e deve chegar na segunda-feira de manhãzinha!
        Saímos dali com a pulga atrás da orelha, mas ainda relativamente tranquilos: nosso voo de volta ao Brasil estava marcado para domingo às 19horas.

SUSTO, AO ACORDAR

        Acordamos no domingo em sobressalto: Munhoz me chamou ao telefone para avisar que todos os canais de TV haviam abandonado a programação normal para transmitir informes e notícias sobre o furacão.
        Embaixo da tela, na horizontal, exibiam uma tarja fixa, com a rota do Andrews, velocidade e pressão atmosférica; os números eram atualizados em tempo real.
        Um homem uniformizado pregava cartazetes na porta do elevador com o seguinte comunicado: “Senhores hóspedes, informamos que o hotel tem de ser evacuado; quem não tiver como encontrar um abrigo seguro, dirija-se a um destes endereços, onde funcionam abrigos antifuracânicos...”
        Como jornalista, nunca havia testemunhado a um bombardeio de informações tão intenso quanto aquele.
        Munhoz voltou para o quarto para telefonar – o celular só iria aparecer no Brasil dali a dois anos. Ligou para a companhia aérea  na presunção de que nosso voo pudesse ter sido antecipado; em menos de dez minutos retornou com a notícia, irrecorrível:
        - Não foi antecipado, foi cancelado! O aeroporto de Miami já está fechado para pouso e decolagem!
        Foi nesse clima de tensão que tomamos o café da manhã. Discutíamos uma alternativa: seguir para Orlando? Procurar um hotel mais seguro em Miami? Prevaleceu a ideia irresponsável do repórter: “Vamos ficar aqui mesmo e enfrentar?”, propus e os dois companheiros aceitaram, talvez por terem encarnado, sem ser jornalistas, a minha curiosidade.
        Num passo seguinte, procuramos o gerente do hotel para perguntar se poderíamos continuar hospedados com a intenção de desocupar dois dos quartos e ficar com apenas um, o meu. Ele consentiu desde que assinássemos um papel isentando o hotel de toda a responsabilidade pelo que viesse a nos acontecer.
        A decisão não foi casual. Interpretando as informações que a TV havia transmitido, sabíamos que meu quarto, amplo, com várias camas, era o único voltado para a lateral do “corredor” por onde passaria o furacão. Os outros dois quartos, ocupados por Munhoz e Batzli, tinham janelas voltadas para o mar. E o Andrews, a TV informava, entraria pelo mar. Meu apartamento, portanto, era o mais seguro ou o menos perigoso.

ESCOLHA SALVADORA

        Liguei para a Rádio Eldorado (do mesmo grupo da Agência Estado e do jornal O Estado de São Paulo), me oferecendo como “repórter furacânico”. Fui aceito imediatamente e com entusiasmo. Ademar Altieri havia realizado uma revolução no jornalismo da emissora, então dirigida por João Lara Mesquita.
        No domingo que antecedeu a passagem do furacão, fui chamado várias vezes pela  Eldorado, entrando sempre ao vivo na programação. Depois da passagem do Andrews, o “repórter furacânico” teve aposentadoria compulsória: nem as comunicações de Miami suportaram a força do “presente de grego” enviado pelo Caribe.
        Não conseguíamos mais falar com o Brasil.

        Antes da chegada do monstro, na condição de repórter, portanto, saí às ruas acompanhado pelos dois companheiros de aventura.
        Caminhamos a pé pelo comércio, vimos as providências antifuracânicas em lojas e shoppings: mercadorias eram suspensas (a previsão, enfim não confirmada, era de que o Andrews levantaria ondas de mais de 16 metros); portas eram reforçadas com vigas e tábuas espessas de madeira; paredes de alvenaria eram erguidas às pressas em pontos estratégicos. Poucas lojas vendiam à minguada freguesia que insistia na compra de artigos bem específicos (Felipe Batzli comprou uma bela câmera Nikon e registrou com ela tudo o que vimos).

VESTIA A CAMISA DO MEU TIME

        Procurei o chefe da polícia que nos atendeu cortesmente e nos mostrou, por minha insistência, a camisa do Corinthians que usava por baixo do uniforme. “Temos nada menos de 900 viaturas preparadas para entrar em cena tão logo o furacão termine de passar. Vamos coibir saques e roubos de mercadorias!”
        Almoçamos na região central, e à tarde fomos procurar, por mera curiosidade, os tais abrigos antifuracânicos: eram prédios escolares afastados da orla marítima e em áreas distantes do corredor por onde, já sabiam, o Andrews passaria. Dentro de um deles, o clima já era pesado: o abrigo acabara de receber algumas  dezenas de doentes de um hospital que teve de ser evacuado por estar localizado na rota do furacão. Havia pessoas com extensas cirurgias abertas e outras gemendo de dor ou desconforto, não sei. 

        Na volta ao hotel, Miami já lembrava uma cidade nervosa como se tivesse sido  informada de que seria invadida pelas tropas inimigas. Carros passavam a toda velocidade em todas as direções, as poucas pessoas vistas nas calçadas tinham pressa, algumas corriam; quanto mais nos aproximávamos da região central, mais surgiam evidências do esvaziamento de Miami: a área central, onde se concentra grande parte do comércio, estava localizada na zona mais crítica, por onde passaria o olho do furacão. Nas ruas do  comércio, por volta das 18 horas, já não havia nem gente, nem carros em circulação.
        Também no hotel eram muitas as providências antifuracânicas: homens uniformizados montavam uma barreira com sacos de areia na rampa de acesso à garagem subterrânea enquanto outros pregavam tábuas em portas do andar térreo; pequenos furgões eram lotados por pequenas caixas de papelão, cujo conteúdo não nos foi possível desvendar.

GRUPO SOLIDÁRIO

        Tive um primeiro contato com um grupo de cerca de 20 pessoas, funcionários da Transbrasil, adultos, jovens, moças e rapazes, que decidiram também ficar no hotel e encarar a fúria do vento. Foram nossos parceiros de medo e sobressaltos.
        Passavam das 19 horas, quando resolvi sair para fumar um cigarro; na esquina mais próxima, um ônibus desembarcou turistas que chegavam de Orlando; alguns se atracaram ao telefone público na tentativa de falar com parentes e amigos na cidade, já estranhando o fato de não terem sido recebidos no desembarque conforme o combinado; falavam português.
        Minha suspeita se confirmou: não haviam recebido nenhuma informação sobre o Andrews e os parentes ou amigos que procuravam por telefone certamente já haviam fugido de Miami. Aproximei-me e contei tudo o que sabia; reagiram com espanto e uma senhora idosa chorou. Iriam procurar hotéis fora da rota do furacão.
        Dei alguns passos na direção do hotel e encontro a mesma "mulherzinha" que já havia enxergado pelas ruas do comércio; deveria ter uns 50 anos, era magra e elegante. Segurava nas mãos os sapatos de salto e trajava um vestido preto Channel.
        Comuniquei-me com ela com dificuldades: não falava espanhol e menos ainda português; meu inglês é muito fraco, mas ainda assim descobri que ela estava confusa, desorientada. Supus que tivesse sofrido um acidente que lhe provocou amnésia. Não se lembrava do próprio nome e nem de seu endereço. Tinha um pequeno ferimento na testa, já cicatrizado.
        Convenci-a a abrigar-se no hotel. Na porta de entrada, a introduzi e continuei do lado da fora, para fumar outro cigarro.
        Ao entrar no hotel dali a uns 15 minutos vejo que ela já estava enturmada com os companheiros da noite. Quando estão sob forte ameaça, a solidariedade aflora com mais força entre as pessoas.
        Estávamos sentados no salão onde era servido o café da manhã, mas os serviços foram suspensos já no começo da tarde.  Repartíamos lanches, bolachas, bombons, biscoitos.

PRIMEIROS SINAIS DA “FERA”

        Passavam das 22 horas quando Munhoz e Batzli resolvem subir para o quarto, no sexto andar. Eu ainda fiquei ali no bate-papo até quase meia-noite, quando resolvi subir também, curioso para saber se já havia algum sinal da “fera”.
        Passamos o dia inteiro atentos ao céu  para ver se enxergávamos um sinal, podia ser um sinal qualquer, uma nuvem mais escura, uma brusca alteração na velocidade do vento, mas qual o quê ! Miami permaneceu o dia todo e parte da noite com céu de brigadeiro e mormaço típico de verão. E de repente chega aquele monstro poderoso capaz de romper tudo o que surgisse em sua frente...
        Os janelões do quarto estavam tapados com cortinas e os dois amigos haviam grudado pedacinhos de fita crepe em cada pequeno vidro:
        - É pra não estilhaçar, explicou Munhoz.
        Passava da meia-noite  quando vimos, pela janelinha do banheiro, os primeiros ventos furacânicos a agitar árvores e arbustos.
        A esposa de Munhoz tinha ouvido meus relatos pela Eldorado e ligou apreensiva.  Ele demonstrou coragem:
        - O furacão já chegou, mas é um ventinho bem sem-vergonha, coisa muito pior do que isto nós já enfrentamos aí no Brasil...

PRIMEIRO GRANDE SUSTO

        Passavam das duas horas quando resolvo descer de novo para sentir o clima lá embaixo, no térreo. O grupo continuava no salão do café da manhã, mas as notícias que um rapaz captava pelo rádio aumentavam muito a tensão! Já não se ouviam mais risadas... A animação fora vencida pelo cansaço e pelo medo...
        Pouco depois das três horas, o Andrews pregou um grande susto em todos ali: lá nos fundos do térreo, o vento arrancou as portas de aço de uma pequena loja, aberta para uma rua lateral e separada do saguão do hotel por treliças metálicas perfuradas. Ouviu-se um grande estrondo seguido do típico barulho de rajada de vento forte; assustado, o grupo apressou-se em subir para o mezanino e eu, movido novamente pela curiosidade irresponsável de repórter, caminhei até lá, seguido por dois funcionários do hotel, que pareceram ter brotado do nada. Quis conferir de perto o que havia acontecido.
        Só mesmo um furacão do porte do Andrews para proporcionar espetáculo tão incrível: o vento penetrava na pequena loja, batia de chapa numa parede e voltava para a rua, sem entrar no saguão do hotel. Ouvíamos apenas o ronco parecido com o de uma mega ventania. A imagem daquilo lembrava uma cena de filme de ficção em que o super-man assopra com força uma parede com a intenção de derrubá-la.
        Voltei a me encontrar com o grupo alojado nos sofás do mezanino e contei-lhes o que tinha visto; ficaram horrorizados, e um rapaz rezou baixinho.
        Antes das quatro resolvi subir novamente para o quarto; viveria então o clímax da aventura. Pra começar, os elevadores estavam paralisados e as escadarias não tinham luz. Movi-me na escuridão com ajuda de um isqueiro; identificava os andares pela contagem silenciosa da memória.

MEDO PELA PRIMEIRA VEZ

        Teimei, teimei e cheguei ao sexto. Tive medo de ter errado na contagem mas enfrentei o corredor mal iluminado, profundo, longo, perigoso. Nosso quarto era o último, distante dali uns 150 metros, talvez mais. A dificuldade estava no fato de o lado esquerdo ser formado por apartamentos com janelas voltadas para o mar.
        Inventei na hora uma tática de travessia do corredor: caminhava rápido até cada uma das portas, e nelas, pulava.  A cautela era justificável: a cada instante, o vento estourava uma vidraça das janelas voltadas para o mar e entrava nos apartamentos estourando tudo, armários, camas, espelhos... E eu não queria ser nocauteado por um guarda-roupa nas costas.
        Ecos de destruição dos apartamentos arrombados reverberavam pelo corredor... Por sorte, todas as portas que abriam para a parte interna do edifício suportaram bem a força do “monstro”, nenhuma delas foi violada naquele andar.
        As lâmpadas do teto eram sugadas para cima e ficavam bailando sobre o buraco, como nos filmes de terror...
        De pulo em pulo, cheguei ao nosso quarto para presenciar a cena inversa da que tinha visto há duas ou três horas atrás: meus dois heróis  tinham sido também vencidos pelo medo, quase pânico! Estavam deitados juntos e abraçados na cama de casal, cobertos até a cabeça com lençol, colcha e edredons:
        - Acho que vamos morrer ! Disse Munhoz, descobrindo a cabeça, com voz trêmula e quase apagada... Seu rosto estava branco como um esparadrapo !
        Foi a minha vez de simular coragem:
        - Que morrer que nada, pô! Eu vou é ver o “perigoso” ali da janela do banheiro! Vamos também, vamos!
        Só eu fui, mas os dois continuaram deitados, já com a cabeça descoberta... Minha presença os reanimou!

VISÃO DE TERROR

        Posso dizer que vi o Andrews passar em todo o seu “esplendor” pela pequena vidraça do banheiro! Creio que eram mais de quatro horas quando ele começava a passar com força total!
        Até hoje, passados mais de 20 anos, lembro-me detalhe a detalhe do avistado:
        -  De cinco em cinco minutos, os vidros grossos da janelinha estufavam para dentro, presumo  que devido ao aumento da pressão causado pela passagem de mais um dos pequenos  tornados que acompanham o furacão. Eu me afastava, dava um tempo e voltava a encostar o nariz no vidro.
        - No topo de um edifício, a haste de uma grua girava sem parar imitando a pá de um ventilador.
        - Lá embaixo, no pedaço de avenida que conseguíamos avistar dali, um semáforo dependurado num curto cabo de aço girava como pião desenhando um círculo luminoso no ar; o aço resistiu quanto pôde até que se rompeu. O semáforo caiu no chão e foi empurrado pelo vento na direção do hotel lembrando um míssil iluminado por faíscas intensas até bater contra a parede de um edifício; parou ali um minuto e logo tomou a direção do comércio com sua trajetória outra vez faiscante.
        - As palmeiras imperiais da avenida em frente ao hotel comiam o pão que o diabo amassou: as folhas da copa altaneira ficaram o tempo inteiro ejetadas para cima dando a impressão que a planta desejava voar; de vez em quando, uma delas tombava, quebrada no caule, a um  metro do solo. Tinham mais de 60 anos, descobri depois...
        - Na rua de comércio que avistávamos dali acontecia um interminável desfile de toldos, pequenos, médios, grandes, arrancados da frente de centenas de lojas...

UM ESPETÁCULO ATRÁS DO OUTRO

        Passavam das seis horas da manhã quando o vento parou de soprar. Parou de repente, sem dar nenhum aviso prévio...
        Em menos de 15 minutos após a calmaria, começamos a ouvir as sirenes das prometidas 900 viaturas... A sensação era de estarmos agora numa extensa pastagem atacada por bilhões de cigarras...
        As ruas da cidade deveriam estar enriquecidas por montanhas de mercadorias valiosas, mas o roubo foi insignificante, segundo as emissoras de rádio que começavam a operar.
        Não se confirmou também o boato de que uma usina de energia nuclear havia sido afetada...
        A polícia informou a administração do hotel que a circulação de pessoas a pé pelas ruas da cidade só seria permitida após o meio-dia. E o hotel exigia também a saída de todos os hóspedes, desta vez sem tolerância.
        Suportamos mais algumas horas de jejum no quarto e ao descermos, quase uma hora da tarde, já não encontramos nenhum dos nossos parceiros de aventura, nem mesmo a “mulherzinha” que possivelmente salvei da sanha assassina do Andrews. Viverei até o fim dos meus dias com esse enigma por resolver: quem era ela? De que nacionalidade? O que lhe aconteceu por ser encontrada assim perdida e desmemoriada?

CIDADE DESTROÇADA

        Havíamos alugado um carro pra voltar de Fort Myers e o deixamos no estacionamento a céu aberto do hotel. Do lado dele,  vimos o primeiro grande sinal da força dos ventos: ali estava, semi enterrada no chão duro, uma peça de aço maciço; olhamos para cima e para os lados e não demorou para concluirmos  que veio voando do céu; deveria pesar uns 30 quilos ou mais.
        Saímos, a quatro quadras dali, encontramos uma lanchonete aberta e em funcionamento; comemos dois lanches cada um e tomamos várias xícaras de café com leite. Pronto, estávamos preparados para fazer o tour pela cidade destroçada!
        Rodamos, de carro, o dia inteiro; improvisávamos os caminhos pelas facilidades de trânsito. Havia inúmeras ruas interditadas por árvores caídas, montes de um lixo estranho: móveis aos pedaços misturados com colchões, geladeiras, televisores, roupas de todas cores  tudo arremessado do alto dos edifícios pela força do vento, imaginávamos.
        Pelos bairros mais próximos, o cenário ainda era pior: vimos dezenas de casas pré-fabricadas destruídas, pequenos prédios sem um ou dois andares, teto de lojas do comércio esmagando milhares de móveis e eletrodomésticos, etc etc etc...
        Passei um bom tempo, depois de tudo, tentando escolher um só exemplo que representasse a força e a fúria do Andrews. Concluí que isto é impossível: são centenas de exemplos, cada qual mais impressionante que o outro. Relaciono aqui alguns dos “avistados” e deixo que o leitor escolha à vontade o exemplo que considerar mais adequado:
        - A carreta estacionada num terreno ao lado do prédio do jornal Miami Herald, lotada de bobinas de papel, foi arrastada dali com carga e atirada numa vala a 500 metros do local.
        - Várias palmeiras imperiais da avenida em frente ao nosso hotel foram quebradas à altura de um metro do solo e arrastadas não se sabe para onde. Tinham no ponto quebrado mais de um metro de diâmetro.
        - Uma lancha de mais ou menos 32 pés estava estacionada no asfalto da avenida de acesso à ilha de Key Biscaine. Ela abriu caminho no bosque existente à direita da avenida por cerca de 500 metros de extensão, depois de fazer uma navegação de pelo menos cinco milhas em altíssima velocidade...
        - O teto de uma imensa loja de móveis na região atacadista de Miami desabou esmagando milhares de armários e sofás... A loja deveria ter a dimensão de duas quadras ou mais!

PRECAUÇÕES

        Vejo na internet um interesse grande por dicas e sugestões para sobrevivência em situações que enfrentamos em Miami. Passo, portanto, as sugestões de quem sobreviveu a um furacão de respeito:
        - Evite hotéis ou hospedagens próximos à orla marítima. Estes são geralmente os mais perigosos.
        - Evite hospedar-se em casas pré-fabricadas.
        - Aproveite bem todas as informações que devem transmitir a internet e mesmo a televisão. Localize-se no ambiente: escolha quartos seguros (nunca aqueles com janelas voltadas para o mar) e saiba de onde virão os ventos e em que direção devem soprar.
        - Tenha sempre algumas poucas provisões em casa, no quarto. Tenha água potável disponível.
        - Não minimize a força dos ventos furacânicos, proteja-se, não viaje de carro sem antes se informar se pode ou não ser alcançado na estrada ou no destino por ventos fora do padrão.
        - Saiba que um furacão atinge  uma faixa de 15 a 20 quilômetros de largura; são formados geralmente no mar do Caribe e sobem em direção à Flórida e dali seguem para outros estados americanos.
        - A capacidade destrutiva de um furacão é determinada pela velocidade dos ventos e por isso eles são classificados em diferentes níveis, de um a cinco. Pode haver mudanças nessa classificação durante o percurso que realiza, do Caribe aos EUA.


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Desastre de Mariana



05/10/2016

Alckmin e Dória no dia de caçar emu!

        Pessoas que se definem como “esquerda autêntica e incorruptível” (?) chamam a dupla Geraldo Alckmin/João Dória, respectivamente governador do Estado de São Paulo e prefeito eleito da cidade de São Paulo, como representante da direita. Não demora muito vão compará-la a Donald Trump ou quem sabe ao sírio Bashar al-Assad, o que será uma vilania.
        Temos de estar preparados: os petistas e as pessoas que encarnam os resíduos ideológicos do PT ainda vão demorar um longo tempo para digerir a derrota avassaladora sofrida nestas eleições. Como lembrou o site “O Antagonista”, o eleitor extirpou o PT da política brasileira. O site rememorou que, em 2008, Lula havia exortado o eleitor a extirpar o DEM da vida pública brasileira.
        Mas, voltemos à dupla Alckmin/Dória... Os paulistas tiveram tempo de conhecer Geraldo Alckmin a ponto de saber que ele não é de direita; é um democrata e liderança antiga de um partido que representa a Social Democracia (PSDB) no Brasil. Não se envolveu até agora em casos de corrupção, não mandou a polícia espancar professores, como fez seu colega de partido, Beto Richa, governador do Paraná.
        Nasceu em Pindamonhangaba, cidade do Vale do Paraíba (SP) em novembro de 1952 e tem, portanto, 63 anos de idade. Ali, chegou a exercer sua formação de médico acupunturista. Na política, era vice do governador Mário Covas, que faleceu de câncer, no exercício do segundo mandato.
        Geraldo Alckmin é, portanto, um democrata, nada mais que isso. E como tal sonha em ser candidato a presidente em 2018, uma aspiração mais do que legítima.
        José Simão, colunista do jornal Folha de S. Paulo, quis aplicar-lhe o apelido de “picolé de chuchu”, pela falta de carisma e seu jeito discreto de fazer política, mas não colou. No resultado dessas eleições, em que seu pupilo, João Dória, elegeu-se prefeito de São Paulo em primeiro turno, nocauteando o prefeito Paulo Haddad (PT) e a veterana Marta Suplicy (PMDB), percebe-se que de “picolé de chuchu” ele, Geraldo Alckmin, não tem nada. Está mais para picolé de creme com cobertura de chocolate...

EMPRESÁRIO DE SUCESSO

        Não há nada também que possa vincular o empresário João Dória à Direita ou qualquer rótulo que o valha.
        Ele é conhecido por ser um empresário de sucesso no segmento de eventos, realizados aqui e no exterior. Ganhou notoriedade com a coordenação de um Fórum de Lideranças empresariais e manteve durante muitos anos um programa semanal de televisão onde entrevistava empresários e beldades.
        Demonstra sempre sintonia com o pensamento dos líderes empresariais brasileiros e sabe o que é mercado. Quando viu a viola em caco, Lula declarou: “Não acredito que a população de São Paulo vai eleger um Fernando Collor...” E continuou: “Minha mulher, Letícia, foi bombardeada pela imprensa porque comprou um casal de cisnes para dar de presente para os filhos... A casa desse cidadão vale 50 milhões, quer dizer, esse dinheiro daria para comprar um milhão de casais de cisne”.
        A mesma TV que gravou a fala de Lula foi ouvir João Dória sobre as críticas que recebeu: “Deixa o Lula falar à vontade, eu prometo que vou visitá-lo em Curitiba”, fulminou o prefeito eleito.  

DIA DE CAÇAR EMU

        Dentro do programa de Dória na TV, em todas as edições, é aberto um espaço para o consultor empresarial Luiz Almeida Marins Filho fazer seu comentário semanal. Sei que os dois – Dória e Marins – são muito amigos, além de parceiros televisivos.
        Já assisti a duas palestras de Marins, antropólogo de formação. Se o prefeito Dória aplicar em sua gestão apenas 10% do que Marins ensina, fará talvez a melhor administração que São Paulo já teve.
        Os ensinamentos são muitos e eu mesmo já abracei vários deles na minha carreira de executivo em empresas de Comunicação (Agência Estado, Gazeta Mercantil, Grupo RIC). Seria impossível falar de todos eles num artigo. Escolhi um, fundamental, que versa sobre a importância de manter o foco em administração.
        Recém formado em antropologia, Marins foi conhecer a Austrália para observar a cultura aborígene. Viveu alguns meses numa comunidade e foi incluído como membro de uma expedição que sairia para caçar emu, ave australiana de grande porte, assemelhada ao avestruz.
        Foi escolhido para ser um dos rastreadores, ou seja, alguém que segue na frente e, avistando pegadas do emu, grita para chamar os caçadores.
        Em menos de uma hora de caminhada, Marins disparou o primeiro alarme. Correram todos para conferir e o jovem rastreador ganhou sua primeira reprimenda:
        - Isto não é rastro de emu, é rastro de canguru!
        - Que ótimo, revidou Marins, então aqui tem canguru, bicho que tem uma carne tão saborosa quanto a do emu, por que não podemos caçar canguru?
        A sugestão deixou a todos ali indignados. Fizeram Marins sentar-se num tronco e, um a um, todos integrantes da expedição repetiram exaustivamente em sua frente:
        - Hoje é dia de caçar emu, emu, está entendendo? Outro dia a gente sai para caçar canguru...
        Dória, em meio à floresta gigantesca de problemas da cidade, saberá como manter o foco dentro da intenção de administrar São Paulo como se administra uma empresa de grande porte... Basta lembrar-se que dia de caçar emu, é dia de caçar emu...

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* Precisamos expulsar a Samarco da mineração brasileira. Assine o abaixo-assinado  pelo link:
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Alckmin e João Dória

Luiz Almeida Marins Filho

Emu

Desastre de Mariana