16/11/2017

Efromovich e Tanure, dois predadores no caminho da Gazeta Mercantil em agonia!

Luiz Fernando Levy não conseguia pronunciar o nome dele... chamava-o de “Hermafrodita”...

Fez uma viagem num de seus aviões e falou muito mal: “Assentos quebrados, sujeira por todo lado, serviço de bordo bem vagabundo!”

Já era um prenúncio que duraria pouquíssimo tempo a parceria firmada com German Efromovich, empresário do Rio de Janeiro, que se dizia inimigo de Nelson Tanure, dono de um estaleiro para montagem de plataformas submarinas e da OceanAir, hoje Avianca, empresa de aviação aérea...

Não se sabe o tipo de acordo que Levy firmou com ele... ouvia-se dizer que Levy, o controlador da Gazeta Mercantil, falecido em outubro deste 2017, se afastaria das operações financeiras e administrativas para entregá-las ao novo parceiro.

Foi passageira a era Efromovich. Rompeu o acordo tão rapidamente quanto o selou. Deixou, contudo, marcas reveladoras de seu estilo: suprimiu telefones celulares pagos pela empresa a seus executivos e introduziu relógio de ponto na redação. Funcionários que haviam passado meses a fio sem receber salários, viam-se então obrigados a manter expedientes rigorosos, como numa fábrica de parafusos. 

Dizem que assegurou o suprimento de papel com a ameaça de concorrer com o fornecedor abrindo, ele mesmo, uma trading para fornecer o insumo a todos os jornais brasileiros. Fez a mesma coisa com a operadora de telefonia, que então amargava longa inadimplência nas contas: ou renegociava a dívida ou a Gazeta trocaria de fornecedor do serviço.

Não se sabe se Efromovich desistiu de Levy ou Levy desistiu de Efromovich.

Após bater em retirada, circulou pela empresa o boato de que fizera a Levy uma proposta “indecorosa” para pagamento do passivo trabalhista. Deixou, contudo, um enigma até hoje não decifrado: teria gravado a conversa com dois jornalistas – um dos quais com várias passagens pela redação do jornal – pela qual tentavam achacá-lo em meio milhão de dólares durante o caso de afundamento de uma de suas plataformas de prospecção de petróleo que  havia fornecido à Petrobras. 

Verdade ou mentira, ambos ainda estão por aí atuando como jornalistas influentes!

RUIM COM ELE, PIOR SEM ELE

Sem Efromovich, a situação interna deteriorava-se dia após dia. Depois de sofrer uma refrega na primeira fase da crise, o Sindicato dos Jornalistas estava de volta à redação – promovia assembleias, conversações, exigia diálogo com dirigentes da empresa, agitava. 

A erosão de talentos com a saída voluntária de editores, repórteres, aprofundava-se. O abatimento que tomava conta das pessoas, dentro e fora de São Paulo, refletia-se na qualidade do caderno Gazeta do Brasil, que eu passara a editar, nessa época já transformado quase numa caricatura das edições  iniciais.

Começávamos, enfim, a rezar para que tudo tivesse  um desfecho, ainda que fosse pelas mãos de Nelson Tanure. 

Enquanto isso, Tanure administrava seu objetivo de ter o controle da Gazeta Mercantil na base da guerra de guerrilha. Coincidência ou não, colunas de jornais, informativos da Internet, amanheciam todos os dias com notas infamantes contra a Gazeta, como se fossem balas de uma metralhadora giratória descarregadas contra a já anêmica empresa.

Tanure entrava em contato com o Banco das Américas e negociava a compra do passivo da Gazeta Mercantil, um dos débitos que Levy questionava na justiça, e espalhava a notícia de que o negócio transferia-lhe o controle acionário do jornal.

Levy não poderia mesmo suportar tamanho desgaste por muito tempo. Em outubro de 2003, estava próximo da rendição.

Relutou o máximo que pode e depois de confirmar que o Grupo Estado, também envolvido por crise de endividamento, perdera o interesse na compra da Gazeta, Levy mandou ao Rio de Janeiro um  enviado para reatar a negociação com Nélson Tanure.

EIS QUE SURGE O ESTILO TANURE

O escolhido para a missão foi Xerxes Gusmão (já falecido). Ia e voltava. A cada viagem, trazia informações “animadoras” sobre a proposta de Tanure a Levy. Não demorou muito para que os dois se encontrassem e fechassem um acordo pelo qual a marca da Gazeta era arrendada por um período de sessenta anos.
   
Sem saber com quem lidava, Levy fez o que pode para assegurar a preservação de seu patrimônio: exigiu que ele mesmo presidisse dali em diante, pelos primeiros seis anos do contrato de arrendamento,  o conselho editorial da Gazeta Mercantil, condição ampliada, por “gentileza” de Tanure, ao Jornal do Brasil e à Revista Forbes. 

Ficou também com a administração dos dois Fóruns (de Líderes Empresariais e Fórum de Líderes Sociais). Transferiu para Tanure, mediante contrato público registrado em cartório do Rio de Janeiro, todo o passivo da empresa: trabalhista, com fornecedores de produtos e serviços e vários outros. Também pelo contrato, Tanure via-se obrigado a transferir para Levy um percentual anual sobre as receitas do jornal para fazer frente aos compromissos da empresa com o Refis II.

Assinado o contrato, Tanure fez sua primeira aparição em São Paulo. Teve várias reuniões com executivos da empresa e achou tempo para um encontro com os editores do jornal. Começava a revelar então seus planos para mais aquele veículo (então, já detinha o controle do Jornal do Brasil e da revista Forbes) que acabara de assumir:

- Chega de mentiras!, disse em voz alta, sabendo que agredir o controlador da empresa seria do agrado da maioria das pessoas que formavam a sua seleta plateia.

Anunciava ali a rapidez com que iria providenciar a mudança do jornal daquele prédio:

- A empresa não tem condições mais de permanecer neste palácio ! (Referia-se ao prédio de Santo Amaro (SP), que pertencia aos Fundos de Pensão; há vários anos, a Gazeta não pagava aluguel)

Por último, ao responder uma pergunta sobre possíveis demissões, anunciou o regime que iria impor à relação trabalhista com os funcionários da Gazeta Mercantil:

- Eu não sei dizer o que eu "vou" fazer. Só sei dizer o que eu "não" vou fazer. Eu não trabalho com CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Não trabalho com CLT. Lá com o pessoal do Jornal do Brasil encontramos um novo regime de trabalho e as pessoas estão muito felizes (era mentira). 

DOCE ILUSÃO

O acordo com Tanure despertou-nos a expectativa de que iríamos receber ao menos o salário atrasado do ano. Aos poucos, descobrimos que o seu refrão – “Chega de Mentiras!” - era apenas instrumento de seu oportunismo. 

Foi ele mesmo quem encorajou a formação de uma comissão de  funcionários com o objetivo de negociar um acordo para pagamento dos salários atrasados. Sua primeira exigência foi separar os atrasados dos anos anteriores (passivão) dos atrasados ocorridos em 2003 (passivinho).

Ao cabo de dezenas de reuniões, no Rio de Janeiro, em São Paulo, com Tanure, sem Tanure, com seus executivos, o acordo, tanto para pagamento do passivão como do passivinho, ficou para as calendas. “Chega de mentiras !”- o que será que Nelson Tanure quis dizer exatamente com isso ?

Já em fins de 2003, sob a gestão de Tanure, os salários foram reduzidos. Ele chegou a contratar um despachante em São Paulo para promover a abertura de empresas individuais para os funcionários. Não pagou o escritório contratado, mas aumentava a pressão interna para que todos (exceção dos salários mais baixos, mantidos no regime da CLT) passassem a receber por notas fiscais, como terceiros.

MAS QUE BELO SINDICATO !  

E o Sindicato dos Jornalistas entrava  em cena apenas para tornar o ambiente interno ainda mais confuso. A entidade chegou a impetrar uma ação, em nome dos funcionários, para forçar que Tanure pagasse ao menos o passivinho. 

A ação tinha tantos defeitos técnicos que os advogados de Tanure conseguiram derrubá-la ainda em primeira instância. Em seguida, o Sindicato tentou uma nova ação, mas já sem apoio de funcionários. Usou nome de alguns funcionários à revelia (pura indecência!) e não deu mais informações sobre o destino da ação. Deve ter ficado também para as calendas.

A mudança de prédio ocorreu rápida. Passamos a trabalhar numa pequena torre da rua Ramos Batista, em Vila Olímpia. A redação ocupava na época quatro andares do minúsculo prédio e ainda assim não tínhamos sequer a metade do espaço que usávamos no “palácio” de Santo Amaro.

Com paredes de vidro, do meu assento de trabalho via quando o então presidente do Sindicato, Frederico Ghedini, o Fred, chegava com sua viatura lá embaixo, na rua. A cena deixava-me ainda mais deprimido. Fred puxava um alto-falante de dentro do carro, colocava-o sobre o teto, passava a mão num microfone e começava a gritar: “Desçam todos, desçam todos, vamos protestar contra os donos da Gazeta Mercantil”. Temos o nosso Lula, eu pensava, temos o nosso Lula!

Descíamos, nos expúnhamos de corpo e alma às pessoas que passavam pela Ramos Batista, alheias ao drama que todos vivíamos. Intercalávamos reuniões com o Sindicato às reuniões com os membros da comissão de negociação. Estes sempre tinham “novidades” sobre as conversas mantidas com Tanure. Eu mesmo já me via desesperançado em relação a uma coisa e outra. Participava das reuniões por participar...

CHURRASCO DE COSTELA

Chegávamos ao final de 2003 e eu começava a pensar em qual seria meu destino na nova empresa. Claus Kleber praticamente assumia a responsabilidade pela edição do jornal ocupando o espaço de Luiz Recena (substituto de Roberto Muller), quase que instantaneamente rejeitado por Tanure. 

Não ficou clara para ninguém porque Tanure não quis saber de Recena. Correu apenas o boato de que os dois tiveram um jantar em São Paulo durante o qual Tanure teria feito ao jornalista a pergunta clássica de quem analisava a possibilidade de mantê-lo no cargo. Teria ocorrido um rápido e fulminante diálogo entre os dois:

Tanure: Diga lá, ô Recena, o que você sabe fazer ? 

Recena: O que eu sei fazer, como gaúcho, é um bom churrasco de costela !

Kleber convidou-me para voltar a editar Saneamento e Saúde e logo em seguida me desconvidou. Contaram-me que o “desconvite” foi ainda por influência de Recena. Não cheguei a dizer não, mas estava decidido a recusar. Não queria na empresa mais nenhum cargo que me mantivesse em São Paulo. 

Preferi ficar com a oferta de Xerxes Gusmão: voltar para Campinas na condição de diretor regional e administrar um pequeno escritório mantido pela empresa. Por ingenuidade, cheguei a sonhar com a possibilidade de refazer com o tempo o mesmo projeto da fase anterior para o interior paulista. Meu salário caiu para menos de um terço, o que aceitei sob a promessa de que receberia comissão sobre negócios que o escritório fechasse. 

Por sugestão do próprio Xerxes programei uma visita de Nelson Tanure a empresas de Campinas. A agenda já estava organizada quando sou informado da novidade: Xerxes Gusmão fora transferido para o Rio de Janeiro e substituído na direção comercial da empresa em São Paulo por Flávio Pestana, o ex-presidente do Valor Econômico.

Não posso dizer que Pestana era arrogante. Os arrogantes olham seus interlocutores de cima para baixo. Pestana os olha de baixo para cima. Um olhar estranho: passa a sensação de que tem aversão ou ódio das pessoas que se aproximam dele.

SAPATO APERTADO

Iniciamos uma relação de trabalho que eu, por antecipação, sabia que não daria certo. Sob as asas de Tanure, o sapato de Pestana ficara muito apertado. Tratava-me como um general que venceu a guerra trata os oficiais - ou soldados - do exército derrotado. Deveria ter-se esquecido de que perdera também a guerra de desenvolvimento do Valor Econômico, mídia que não decolou enquanto esteve sob seu comando.

A visita de Tanure aconteceu já em meados de março de 2004. Pestana não permitiu que eu viajasse  ao lado do empresário no carro que os levou do aeroporto de Viracopos até Campinas. Tive de acompanhá-los em outro carro. Conversei com Tanure por uns dez minutos numa lanchonete do aeroporto. Vi nele apenas um problema: não ouve as pessoas. Fala mais do que ouve. Passa recomendações rápidas e encerra o assunto, com a objetividade dos espertos ou dos rápidos. Deveria fazer um curso de “escutatória”. 

Queria falar a ele do potencial do interior de São Paulo, considerado o segundo mercado do país, depois da Grande São Paulo; queria falar-lhe da importância de voltar a investir na região, mas não tive chance. Visitou duas empresas de energia elétrica (o presidente de uma delas, a CPFL, não quis recebê-lo) propôs a realização pela Gazeta de seminários para ajudar na definição do marco regulatório do setor e foi embora. Nunca mais o vi. 

MAS QUE BELO REGIME!

Mais alguns meses de trabalho e consigo observar o regime estabelecido pelo novo gestor, Nelson Tanure, à Gazeta Mercantil: poderia ser chamado de regime do “não pagar”, do “não pagar”. Forçou para que todo o passivo trabalhista fosse parar na justiça. Não pagou nenhum tostão dos salários atrasados. Não pagava sequer míseras despesas de serviços realizados pela empresa. Não pagava comissão sobre venda. Até Flávio Pestana reclamava da insuportável cultura do “não pagar”.

Suportei mais dois meses desse persistente “não pagar” e resolvi pular fora. Fiz uma visita a Levy com o intuito de despedir-me e ele convidou-me para dirigir o Fórum de Líderes Sociais do Brasil. Estávamos em junho de 2004. Levy começava a respirar novamente depois de atravessar a longa turbulência. Preparava-se então para também conviver com a cultura do “não pagar”.

Soube então que Xerxes Gusmão retomara o comando de algumas estruturas da Gazeta, entre as quais o pequeno escritório de Campinas, ainda por ser montado. Voltava a ser meu chefe imediato. Sabia que não receberia nenhum tostão das verbas rescisórias. 

Estranha a maneira de deixar uma empresa onde trabalhei por seis anos a fio. Telefonei para Xerxes Gusmão no Rio de Janeiro e disse apenas:

- Fui!

(No próximo e último capítulo desta série, falarei do fim da Gazeta e da ascensão e declínio dos Fóruns, uma experiência de trabalho que me fez enxergar o verdadeiro caráter de Levy)



Luiz Fernando Levy

07/11/2017

Gazeta Mercantil: o voo de galinha do Investnews!

        Quando, em março de 1998, fui admitido pela Gazeta Mercantil, já acumulava 10 anos de experiência na difusão de informações pelo meio eletrônico como executivo da Agência Estado, empresa do Grupo Estado, transformada na minha época de agência de notícias a agência de informações...

        A Agência Estado (AE), sob a batuta de Rodrigo Mesquita, teve uma decolagem esplêndida! Saíra de uma receita de 500 mil reais/ano, em 1988, para chegar a uma receita superior a 100 milhões/ano, em 1998... E eu não apenas participara como presenciara a decolagem, conhecia em minúcias todos os segredos do projeto...

        Mais que isso, eu havia estado na Nikkey, em Tóquio,  e observado como os japoneses conseguiam multiplicar o uso de um mesmo conteúdo por mais de uma dezena de mídias, inclusive o serviço por via eletrônica em tempo real...entrevistei diretores de conteúdo da Nikkey e redigi um relatório que impactou as atividades da Agência Estado...

        O Globo quis emular o modelo da AE, mas se deu mal: investiu em pessoas erradas e seu projeto de difusão de informações pela via eletrônica naufragou em menos de dois anos...Não conhecia os segredos da AE!

PARECIA URUCUBACA

        Quase coincidindo com minha saída da Agência, a Gazeta Mercantil contratou um funcionário graduado da AE, Edmilson Marin, para alavancar o Investnews, o braço eletrônico da empresa... Marin foi meu funcionário na Agência, eu é que o havia promovido a gerente... Era um ótimo vendedor. Nada mais que um vendedor...
Nos sete anos em que permaneceu na AE, nunca deu sequer uma pequena contribuição de caráter estratégico...

        Com pouco mais de um ano no cargo, Marin aproveitou o encontro da diretoria da Gazeta em Uberlândia (MG) para apresentar o “novo e revolucionário” software do Investnews recém desenvolvido sob sua orientação. Atrapalhou-se no meio da demonstração e teve de suportar a interpelação devastadora do diretor comercial, Cláudio Lachini (falecido em 2015):


        - Escuta Marin, tem um manual de uso desse programa para pessoas como você?

        Ao me afastar da Agência Estado em fevereiro de 1998, havia prometido a mim mesmo que nunca mais me meteria naquele tipo de trabalho, de ajudar uma empresa jornalística a decolar em atividades que pouco tinham a ver com o jornalismo clássico, tradicional, minha paixão... Ainda assim, redigi um longo e didático texto chamando atenção para os segredos que impulsionaram fortemente a Agência Estado...

        Minha intenção era entregar o material a Luiz Fernando Levy, o controlador da Gazeta Mercantil (falecido em Florianópolis em outubro de 2017), e fazer com que ele enxergasse o quanto erráticos eram os caminhos tomados até então pelo Investnews; antes de receber o texto, pediu que eu o encaminhasse a seu sobrinho, Victor Levy, que vivia já há vários meses no exterior se preparando pra assumir o braço eletrônico da Gazeta...

        Foi o que fiz. Sei que Victor recebeu, mas creio que não teve tempo de ler: foi demitido algumas semanas depois embaixo de uma nuvem de suspeitas de que desviara recursos da empresa; nunca mais ouvimos falar dele...

        Parecia urucubaca...O Investnews continuou o seu voo de galinha... No segundo semestre de 2000, Levy conseguiu fechar a negociação de venda de parte do Investnews ao grupo Portugal Telecom e assim obteve uma injeção de capital da ordem de R$ 80 milhões, isso mesmo, 80 milhões.

        Pelo que se ouviu dizer na época, o dinheiro serviu para que Luiz Fernando Levy comprasse as ações pertencentes a seus irmãos e se posicionasse como controlador soberano da empresa. O dinheiro dos portugueses desapareceu e não serviu sequer para fazer o Investnews decolar (sei dizer que a Portugal Telecom foi muito boicotada por assessores de Levy).

DIÁLOGO COM SURDOS

        Em 2002, a crise já mostrava a sua cara aterradora. Luiz Fernando Levy batera em retirada, entregando o comando da empresa ao jovem financista Sergio Thompson Flores... Eu continuava na direção das Unidades Regionais do interior paulista, trabalhava intensamente sem receber salário e me recusava a usar a meu favor recursos da empresa arrecadados pelas três unidades que administrava...

        No comecinho do ano, sou chamado a São Paulo para uma conversa com Sergio Thompson Flores... Não fui avisado do assunto.

        Já em sua sala, descobri que ele soube que eu havia trabalhado dez anos na Agência Estado e queria conversar sobre o Investnews. Animei-me com a possibilidade de transferir conhecimento e conceitos ao Investnews e quem sabe levar o serviço a encontrar um rumo:

         Flores - O que acontece com o Investnews, hem? Por que esse serviço depois de tanto tempo não decolou?

         Eu - A marca Investnews é hoje uma marca queimada. Tentou concorrer com a Agência Estado e não conseguiu...

         Flores - Mas por que isso aconteceu ?

        Eu - No fundo, ele oferece ao mercado algo que não tem pra entregar: o chamado “hard-news”, a notícia quente do momento, que não é e nunca será a praia de seu principal provedor, o jornal Gazeta Mercantil.

        Flores - Então quer dizer que a Gazeta não tem condições de produzir “hard news”?

         Eu - Não, não tem. Nunca terá...

         Flores - Como assim? Ah, o Roberto Muller (diretor de redação) tem de participar dessa conversa (liga para Muller e o chama em sua sala).

         Flores (dirigindo-se a Muller) - A Gazeta Mercantil então não tem condições de produzir “hard news”?


         Muller (certamente enxergando em sua frente um diretor regional pretendendo assumir o comando do Investnews) - Claro que tem. A Gazeta tem condições de produzir todo o hard-news que o Investnews vier a precisar.

         A conversa implodiu. Dali em diante, Thompsom Flores e eu fomos obrigados a ouvir Roberto Muller  dissertar sobre seus “vastos conhecimentos” de serviços de difusão eletrônica e seus planos para ativar o Investnews, deixando claro, evidentemente, que para isso não precisaria de minha ajuda. E o Investnews atravessaria mais dois anos de crise representando apenas  um centro de custos — e custos elevados — para uma empresa em agonia.

        Para alavancar o Investnews, ao invés de aproveitar as informações que eram captadas para produção do jornal Gazeta Mercantil – o que eu proporia, se me ouvissem - a dupla Roberto Muller - Mathias Molina (responsável pela redação) investiu preciosos recursos na montagem de uma estrutura específica e paralela, diziam eles que “especializada” na produção de hard-news (Um dos segredos da AE era justamente o de realizar um segundo aproveitamento dos conteúdos que já eram produzidos para os jornais da casa –  Estadão e Jornal da Tarde).

        Chefiava a estrutura a esposa de Mathias Molina, Cinthia Malta. Convivi com ela o suficiente pra perceber que  não tinha a menor noção do que fosse um serviço de difusão de informações pela via eletrônica.

UM SERVIÇO DE FEATURES

        No texto que enviei a Victor Levy, sugeria que a Gazeta esquecesse o hard-news e competisse naquilo que ela mais sabia fazer:  features de economia e análise setorial (ver ao final deste texto o significado do termo feature*)... O fracasso da Gazeta Mercantil é também um belo exemplo a demonstrar o quanto as lideranças personalistas podem contribuir com o naufrágio de um bom empreendimento...

        Eu tinha certeza de que o dinheiro que a Gazeta Mercantil precisava para superar a crise e se reequilibrar poderia vir do Investnews se soubesse aproveitar alguns dos segredos da Agência Estado que eu poderia revelar, gratuita e desinteressadamente... Desde que pagos pela mídia impressa, os custos dos serviços de difusão de informações pela via eletrônica são baixíssimos e as receitas não decaem com as crises... diria que elas até aumentam porque todos os usuários vão precisar de mais informações pra se defender dos males da crise... Outra vantagem é que a inadimplência é sempre próxima de zero – se não pagar a fatura do mês, o usuário fica sem informação...

        E a Gazeta Mercantil, por sua tradição e credibilidade na produção de features de economia e negócios, tinha plenas condições de decolar rápido e ocupar, em no máximo dois anos, um segundo lugar na condição de provider do mercado financeiro e empresarial...

        *FEATURES - Gênero jornalístico que vai além do caráter factual e imediato da notícia, opondo-se a "hard news", que é o relato objetivo de fatos relevantes para a vida política, econômica e cotidiana (Folha On-Line).

(No próximo capítulo da série sobre Luiz Fernando Levy, falarei da inefável gestão Nelson Tanure e do declínio dos Fóruns de Líderes)





Paula Gertrudes, Luiz Fernando Levy, Cláudio Lachini... 

Cláudio Lachini e Levy na época em que eram amigos...
O inesquecível Cláudio Lachini e Paula Gertrudes, espécie de chefe do cerimonial da Gazeta Mercantil, cuja beleza e simpatia a fizeram amada por toda a comunidade "gazetiana"...






27/10/2017

Luiz Fernando Levy, ideias coerentes, práticas deletérias!

        Pode ser que tenha existido outro homem que conhecesse o Brasil tanto quanto ele; mais que ele, nem o presidente da República!

        Por várias vezes, ministros do governo FHC corrigiram seus dados, de obras, de investimento, de trabalhadores envolvidos, pelo levantamento realizado por Luiz Fernando Levy, falecido em Florianópolis neste outubro de 2017, controlador daquele que chegou a ser o maior jornal de economia e negócios da América Latina, a Gazeta Mercantil...

        Era o fim dos anos 1990 e o Brasil fervia, com a inflação controlada pelo Plano Real (1994) e sob a batuta do governo de FHC (1995 a 2003)! Parecia não haver uma só fábrica, uma só empresa, que não estivesse em ritmo de expansão.

        Pela unidade de Campinas, no interior de São Paulo, lançávamos mais um jornal regional, o Planalto Paulista... sua primeira edição, de quase 60 páginas, trazia um levantamento pormenorizado da explosão de novas unidades industriais que chegavam de toda parte, do Brasil e do mundo...

        Num procedimento transformado em rotina, um corretor imobiliário de Campinas foi ao aeroporto de Viracopos apanhar um investidor francês para ver terrenos para implantação de uma indústria de grande porte... O cliente desembarcou do avião com o celular no ouvido, viu um terreno, viu dois, viu três sem tirar o celular do ouvido... irritado, o corretor arrancou-lhe o aparelho das mãos e o atirou nas pistas da rodovia dos Bandeirantes... Quase provocou um incidente diplomático!

LEVY NADOU NESSA ONDA

        Luiz Fernando Levy nadou de braçadas nessa onda de prosperidade fazendo as duas coisas que mais gostava: viajar e comer bem (era um gourmet e tanto!). Incansável! Tinha grande sintonia com os empresários que o convidavam para conhecer projetos, obras de expansão, obras de infraestrutura...

        Viajava, conhecia detalhes de obras e depositava tudo num banco de dados que engordava bastante a cada mês, a cada semestre... Os dados serviam para preencher o mapa que ele usava em suas palestras. Suas palestras eram – digamos – altamente motivacionais: falavam de um Brasil muito pouco conhecido, o Brasil da prosperidade, o Brasil que conseguira, finalmente, manter a inflação em um dígito, o Brasil que demonstrava ter acordado da histórica letargia!

        Roberto Baraldi, meu contemporâneo na diretoria de unidade regional da Gazeta Mercantil (enquanto eu cuidava do interior paulista ele cuidava de Minas Gerais, depois de passar vários anos no comando da redação da Gazeta Latino-Americana) costuma dizer que LuIz Fernando Levy era um visionário que sentia que o Brasil tinha potencial para crescer aceleradamente, multiplicando a renda per capita e ganhando um novo papel estratégico no cenário mundial...

        “Ele – continua Baraldi – queria ver este Brasil de perto, de dentro, e queria que os jornalistas que o acompanhavam em seu projeto fossem juntos”.

        “Promovia – persistiu Baraldi  regularmente rodízios de jornalistas residentes entre as várias regiões do Brasil de modo que um profissional da redação tivesse contato com muitas realidades brasileiras, desenvolvendo uma visão nacional ampliada e mais elaborada. Além disto, Levy organizava reuniões regionais de toda a diretoria e comando da redação nos mais distintos pontos do Brasil, das Missões, no Rio Grande do Sul, ao Cariri, no Semiárido; da Amazônia a Ouro Preto, para difundir o que chamava de Novo Brasil, um país potencialmente rico e mais justo que estava em gestação. Seus argumentos eram concretos”.

        Baraldi continuou: “Ele organizava inventários bem fundamentados de investimentos em curso por todo o país. Muito antes da era Lula e do PAC, ele já listava todas as obras em planejamento e execução e antevia que este esforço de desenvolvimento da infraestrutura teria o poder de mudar a cara do Brasil, fazendo uma revolução logística e uma descentralização do crescimento econômico”.

        Eu convivi com Levy, antes da crise, menos tempo do que Roberto Baraldi... Ainda assim, foi possível enxergar muita coerência no plano que ele concebia para seu jornal...o problema, como já disse em artigos anteriores, foi a prática deletéria que uniu grande irresponsabilidade à falta de caráter...

        Numa das viagens que a empresa organizava, por exigência de seu controlador, a lugares incomuns, há um episódio que ilustra bem o jeito nada correto de Levy tocar o projeto de expansão do jornal. As lideranças da Gazeta – diretores, comando das redações e redatores, cerca de 80 pessoas – estavam hospedadas no Hotel Nacional, em Manaus. Era noite. No anfiteatro do hotel, havíamos assistido a  um concerto da Orquestra Filarmônica de Manaus, regida pelo fabuloso Júlio Medaglia...

        Logo após o jantar, fomos convidados a sair para o espaço que circundava a piscina, a céu aberto... era para presenciar a uma queima de fogos de artifício em homenagem à Gazeta Mercantil...

        Num prenúncio da grande crise, o 13º de todos ali já acumulava dois meses de atraso... durante o foguetório, o irônico Philip Balbi, diretor da Publicidade Legal, apontava o dedo para o alto e gritava: “Seu décimo terceiro acaba de explodir, puuuum!” E repetiu isso várias vezes...

        Os maus presságios me fizeram dormir inquieto aquela noite, embora já soubesse que no dia seguinte navegaríamos pelos rios amazônicos e conheceríamos o exótico hotel Ariaú, com direito a pernoite...Aquela e várias outras viagens foram das poucas coisas boas que a Gazeta Mercantil me proporcionou...

AVENTURAS EXTERNAS

        Roberto Baraldi e Bia Toledo ocuparam cargos de comando no projeto da Gazeta Latino-Americana, outra proposta extremante ousada de Levy, que naufragou pouco antes do jornal-mãe... Ambos me escreveram contando fragmentos da experiência:

Roberto Baraldi:

        “A visão de mundo de Luiz Fernando Levy era muito afinada com a de Fernando Henrique Cardoso e ambos imaginavam que o Brasil poderia ter mais e melhor inserção na América Latina. Ambos impulsionaram o Mercosul, inspirando-se no exemplo de integração europeia.

        O  Novo Brasil  sonhado por Levy seria o eixo estruturante do novo bloco econômico. Levy queria criar o jornal que ajudasse a integração.

        Em 1996, concebeu a Gazeta Mercantil Latino-Americana, semanário bilíngue que tinha duas sedes: em Buenos Aires e no Rio de Janeiro, onde ocupava um andar do Teleporto.

         O jornal fez acordos editoriais na Argentina, Paraguai e Uruguai, e circulava semanalmente em espanhol nestes países. Ele corria a região pregando pressa na formação do bloco. Imaginava que já àquela altura  estávamos maduros para a adoção de uma moeda única.

        Mas Luiz Fernando Levy achava que o Mercosul era pouco. Ele imaginava um bloco maior, que tomasse toda a América do Sul. Deu-lhe até um nome: Amercosul.

E abrimos conversações com parceiros e jornais do Chile, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia. Em sua visão, este bloco tinha que se relacionar ativamente com os Estados Unidos, principalmente a partir da porta de entrada representada por Miami/Flórida, e com a União Europeia, a partir de Portugal e Espanha.

        Fizemos acordos editoriais e a Gazeta Mercantil Latino-Americana passou a circular em Portugal e em Miami, em associação com importantes jornais locais.

        Ocorre, porém, que o Novo Brasil era uma visão que não tomou corpo. Muitas obras vitais não foram executadas ou concluídas. Muito esforço de planejamento emperrou em baixa capacidade de gestão.

        O país rico e eficiente ainda não se levantou do berço como se esperava. O Mercosul e a federação sul-americana também não amadureceram como poderiam. Nosso lugar no cenário mundial continua a ser tímido.
       
        Mas Luiz Fernando achava que o encontro do Brasil com seu destino glorioso era uma questão de tempo. Ele vinha trabalhando para trazer a Gazeta Mercantil à luz novamente, apostando que ainda havia espaço para o que o jornal representava em termos de visão de desenvolvimento e valorização da informação como ferramenta estratégica.

        Se o conheci bem, buscou formas de colocar o sonho em pé até o último segundo de consciência de sua vida".


Bia Toledo:

         "Luiz Fernando Levy sonhava em ter a sua Gazeta Mercantil fortíssima até na Península Ibérica... Chegou a nomear um diretor por lá, o Rodrigo Mesquita... A dívida da Gazeta fora do Brasil também cresceu assustadoramente... ficou devendo tanto na Argentina que a previdência social desse país estava atrás dele.
       
        Ele havia criado um Fórum de Líderes Empresariais da América Latina, emulando os fóruns brasileiros... Participei de vários eventos dos líderes do Mercosul.

        No Uruguai, a abertura do Fórum foi feita pelo Júlio Sanguinetti, na época presidente do pais. No Paraguai, a mesma coisa. Na abertura do Fórum da Argentina, estavam também presentes os maiores empresários do Brasil e da Argentina.

        Editamos várias revistas de sucesso, emulando também as publicações brasileiras. A primeira “1.000 Maiores Empresas Latino-Americanas” foi um tremendo sucesso comercial; faturou já na primeira edição quase a mesma coisa da tradicional Balanço Anual, editada no Brasil....

        Uma pena que tudo tenha naufragado!"

(No próximo e último artigo da série sobre Luiz Fernando Levy, falarei do eterno voo da galinha do Inwestnews, da gestão excrescente de Nelson Tanure e do lamurioso fim dos Fóruns empresariais da Gazeta Mercantil)
Luiz Fernando Levy

Roberto Baraldi

Bia Toledo

19/10/2017

Luiz Fernando Levy: voos altíssimos, sem asas!

        Quando assumi a direção da unidade da Gazeta Mercantil na região de Campinas (SP), em abril de 1998, eu já conhecia razoavelmente bem as operações do jornal por observar, de perto, o trabalho de dois diretores regionais – Valério Fabris e Cláudio Lachini – visto como exemplo na organização.

        Fui chefe da sucursal de Curitiba dos jornais Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde por 16 anos (de 1976 a 1991) e foi ali que eu me tornei amigo e admirador de ambos. Com Valério, aprendi a força que o relacionamento com empresários pode ter na vida de um jornal de economia e negócios. Valério Fabris passara oito anos na condição de correspondente da Gazeta Mercantil no Paraná. 

        Quando deixou Curitiba para assumir postos de maior importância na empresa, quase mil empresários de todos os calibres compareceram à festa de despedida! Quem lá esteve, como eu, ficou de queixo caído em observar o prestígio do jornalista junto ao público-alvo da Gazeta Mercantil.

        Com Cláudio Lachini (sua morte em 2015 me deixou desolado), aprendi muito sobre criatividade, inovação e espírito empreendedor... Ele fora mandado a Curitiba no começo dos anos 1980 para implantar a Unidade de Negócios do Paraná. Inventou uma espécie de “unidade itinerante” da Gazeta Mercantil pelo Estado e tornou o jornal presente e forte em todos os mercados dinâmicos do interior, de Apucarana a Londrina, de Maringá a Campo Mourão, de Cascavel a Foz do Iguaçu... Suas marcas de receita e prestígio nunca foram superadas.

REENCONTRO EM SÃO PAULO

        Em 1988, eu também retornava a São Paulo, a convite de Rodrigo Mesquita, para integrar o time de jornalistas que iria transformar a AE - Agência Estado (grupo Estado) de agência de notícias em agência de informações. Fui responsável então pela implantação de uma nova rede de sucursais da AE em todo o Brasil.

        Já tentara emular o modelo operacional da Gazeta Mercantil: um jornalista nomeado como espécie de Publisher, responsabilizando-se por todas as operações da empresa regionalmente. Era uma ótima fórmula, nunca tive qualquer dúvida...

        Reencontrei-me com Cláudio Lachini em São Paulo, eu como diretor comercial da AE e ele como diretor comercial da Gazeta Mercantil. Foi ele que me convidou a assumir a unidade de Campinas...

        Cláudio Lachini passou-me as instruções e junto com elas veio uma descrição sumária do que era o plano estratégico em andamento:

        - Com as unidades regionais, pretendemos realizar uma ocupação horizontal do país e seus principais mercados. Prepare-se para lançar logo mais o jornal regional de Campinas. Ele será o instrumento pelo qual a Gazeta Mercantil fará a sua inserção vertical, nos mercados regionais e na comunidade.

        Antes de tomar posse em Campinas, tive meu primeiro contato com Luiz Fernando Levy, o comandante. Foi um encontro rápido e frio. Aprofundou um pouco a orientação que me havia sido passada por Lachini e acrescentou:

        - Os assuntos relacionados ao institucional da Gazeta, você trata diretamente comigo. Pode me ligar quando tiver necessidade. 

        Em Campinas, saí a campo, já vestido com a camisa do Publisher.  Visitei empresários, executivos das grandes corporações, lideranças empresariais, políticas e sociais. Apresentava-me, falava do plano estratégico da empresa e deixava implícito que iríamos interagir dali em diante com intensidade. “Enxerguem na Gazeta uma ferramenta de ajuda na solução dos problemas que afligem o setor empresarial na região”, concluía assim as inúmeras reuniões. 

        Marcava eventualmente encontros de grupos de empresários ou visitas às empresas com a presença de Levy, que se mostrava sempre disposto a ajudar o seu time de diretores regionais, chamados de senadores internamente, não se sabe se por ironia ou respeito.

FRUTOS SURGIRAM EM POUCO TEMPO
  
        O trabalho frutificou. As pessoas estavam ansiosas por interagir com a Gazeta. Comecei a receber telefonemas, um deles, aliás, bastante curioso:

        - Você não sabe a alegria que eu tenho em ouvir a sua voz e descobrir que você está vivo. Liguei na certeza de que receberia a informação de que você havia morrido ontem, disse-me o então secretário do desenvolvimento da Prefeitura de Campinas, Manoel Carlos dos Santos. 

        Recorri rápido ao jornal da cidade e fui direto à coluna necrológica: no dia anterior havia morrido, em Campinas, um contador de nome Dirceu Pio. Alguém abrindo a vaga pra mim, imaginei.

        Lembrei-me também, nessa época, de uma das histórias contadas por Valério Fabris. Ao desembarcar em Florianópolis para assumir, no final dos anos oitenta, a unidade regional de Santa Catarina, Valério recebe um telefonema do então governador do estado, Espiridião Amin, que lhe dava as boas vindas. Marcaram um almoço para se conhecer pessoalmente já no dia seguinte. Valério, detalhista, disse ao governador:

        - Irei vestido com terno azul e gravata vinho. E o senhor?

        - Valério, eu não costumo usar peruca, replicou Espiridião Amin, o dono da calvície mais radical entre os políticos brasileiros.

        Formei a equipe – Ana Carolina Silveira, Ana Heloísa Ferrero, Agnaldo Brito, Maria Finetto, Angela Gusikuda, Cacalo Fernandes – cuidando da redação e Alberto Luiz Ferreira e Alexandre Catani cuidando das vendas de publicidade e de assinaturas – e intensifiquei contatos com empresários.

        Em menos de seis meses, começávamos a colher resultados: o gráfico das receitas iniciaria um longo e pronunciado curso de altas mensais e sucessivas...

        Aquilo que a Gazeta definira por Região de Campinas era bem amplo: incluía os municípios de Sorocaba, Jundiaí, Piracicaba, Americana, Limeira e dezenas de outras cidades menores, que no conjunto formavam uma megalópoles com mais de 4 milhões de habitantes – e era o segundo polo brasileiro em produção industrial, perdendo apenas para a Grande São Paulo...

        Haja pernas e disposição para fincar a bandeira da Gazeta em toda parte!

E SURGE O PLANALTO PAULISTA

        Em menos de um ano, lançávamos o jornal regional de Campinas. Chamava-se Planalto Paulista. Eram na verdade de seis a oito folhas encartadas de segunda a sexta-feira no jornal-mãe com circulação restrita nos municípios da região...

        A ideia era simplesmente sensacional e nunca entendi porque, mesmo após o desaparecimento da Gazeta, nenhum outro jornal a tenha copiado!  

        Em praticamente todas as visitas que eu fazia – e eram muitas! – encontrava sobre a mesa das principais lideranças empresariais exemplares do jornal regional rabiscados ou recortados em sinais evidentes de que era uma mídia útil e necessária... Foi possível perceber a importância da cobertura sistêmica de economia e negócios regional! 

        Em menos de um ano de circulação, os jornalistas a serviço do regional eram identificados em coletivas como repórteres do Planalto Paulista, quer dizer, o filhote  tomando o lugar da mãe...

IDENTIFICAR PROBLEMAS 

        Meu passo seguinte foi identificar os mais graves problemas regionais e examinar como a Gazeta poderia contribuir com a solução! Não demorei a trombar com o problema da água: a natureza e as circunstâncias não foram nada generosas com a região de Campinas...

        Começa que o sistema Cantareira, feito pra abastecer a Grande S. Paulo, rouba, lá na cabeceira, boa parte das águas dos rios (Jundiaí, Capivari-Cachoeira, Atibaia, Piracicaba) que passam pela região. Já descem mambembes e pelo caminho eram drasticamente detonados pelo lançamento de esgotos urbanos e industriais...

        Não bastasse essa dupla tragédia, havia o grave problema geológico: uma faixa enorme do território de Campinas e vários municípios vizinhos (Vinhedo, Valinhos, Paulínia, Jaguariuna) é revestida por um maciço granítico de tal espessura que torna impraticável a abertura de poços artesianos.

        A situação era dramática, mas os usuários, sobretudo a indústria, não eram suficientemente informados do cenário ameaçador!

        Foi fácil escrever o Projeto Água, executado com brilhantismo e entusiasmo pela equipe da Unidade!

        A estrutura do Projeto obedeceu a uma agenda muito bem calculada: começou com a edição de seis cadernos temáticos encartados no Planalto Paulista e terminou com um seminário que reuniu mais de mil pessoas no auditório do CIESP, em Campinas, para discutir a cobrança pelo uso da água.

        Num primeiro resultado do projeto, conseguimos alterar substancialmente a composição da estrutura dos organismos gestores da água doce no estado de São Paulo, com redução da participação do governo estadual e aumento da participação das comunidades. 

        “Água para todos, todos pela água”, rezava o cartaz, no formato de um pôster, que servia para difundir os objetivos do programa ... Nem nós que o idealizamos e o executamos conseguimos prever tanta repercussão – o Projeto Água conquistou vários prêmios regionais e chegou à finalíssima do Prêmio Esso. 

        O cartaz foi emoldurado e colocado nas paredes de um número incontável de empresas, Ongs e Prefeituras. Foi no comecinho do novo século...

NÚMERO DE ASSINANTES DISPAROU

        Recebeu ampla adesão de anunciantes; produziu, como já disse, transformações básicas na estrutura de gestão das águas em SP; impactou inúmeras indústrias regionais só então alertadas para a escassez da água regional. Pode-se dizer, com segurança, que foi o Projeto Água que intensificou a racionalização do uso da água pela indústria paulista.
       
        Lembro-me que um dos artigos publicados nos cadernos temáticos mostrava que, na França, o valor da tarifa pelo uso da água subia ou descia de acordo com os índices de poluição dos mananciais, num mecanismo extraordinário para incentivar a conservação por usuários e municípios... 

        Outro artigo apontava para os riscos da paralisia quando os governos açambarcam e tutelam os organismos de gestão: em nenhum dos países onde isso ocorreu houve avanço mais significativo na proteção de mananciais...

        Outro resultado fantástico do projeto foi o modo como ele incentivou a leitura do jornal-mãe, tanto que as assinaturas da Gazeta Mercantil na região de Campinas, até então estacionadas na casa das quatro mil, disparou impetuosamente para encostar na marca de 20 mil, simplesmente um arrojo para um jornal segmentado... Muito mais gente quis acompanhar os conteúdos do Projeto Água e para isso era convencida a assinar a Gazeta Mercantil...

MAIS E MAIS PROJETOS      

        Na sequência do Projeto Água, veio o Projeto Ambiental e na sequência deste veio o Projeto Socioambiental, este com duas novidades: a instituição de um Prêmio a empresas, prefeituras, ONGS, propriedades rurais que nos apresentassem os melhores programas socioambientais e estadualização das atividades (Por determinação de Luiz Fernando Levy eu havia assumido a direção de duas outras unidades, a do Vale do Paraíba e a de Ribeirão Preto, o que permitiu ampliar a área de alcance dos projetos para quase todo o Estado de São Paulo).

        Para quem estava de fora, foi bonito de ver: informadas de que ganharam um dos prêmios, prefeituras e empresas de cidades longínquas como Rio Claro, Penápolis, Caçapava e Jacareí formaram caravanas de ônibus e carros para vir a Jaguariúna, na Red Eventos, participar de um seminário e assistir à solenidade de entrega dos Prêmios – troféus confeccionados por crianças carentes de uma instituição de Campo Limpo Paulista, mais diplomas e cartelas de selos de qualidade socioambiental que as empresas poderiam colar em seus produtos...

        Ao derrubar as torres gêmeas de Nova Yorque, em 11 de setembro de 2001, Bin Laden certamente não poderia imaginar que estaria matando também o maior jornal de economia e negócios da América Latina...
        Ao concluir o Projeto Socioambiental, eu já sabia tudo o que estava na iminência de acontecer... depois dos atentados, a Gazeta iria amargar meses sem a entrada de um só anúncio pago e os funcionários iriam suportar meses de inadimplência salarial...

A FESTA ACABOU

        Quanto realizamos a festa de encerramento do Projeto Socioambiental – nada menos de 2.500 pessoas em grande animação na Red Eventos com direito a jantar, tudo pago pela CPFL, patrocinadora máster  -  já sabíamos que as unidades do interior paulista seriam fechadas...

        Luiz Fernando Levy, acovardado, já batera em retirada, entregando o comando da empresa para o inepto Sergio Thompson Flores... Meu amigo Cláudio Lachini é que esteve em Jaguariúna e deve ter percebido todo o meu desencanto...

        Lembrava-me dos meus tempos de Agência Estado... Monitorávamos a Gazeta Mercantil por saber que ela, com seus conteúdos especializados, seria um concorrente respeitável se entrasse na difusão de informações pela via eletrônica...

        Olhávamos com desconfiança para o barulho provocado pela implantação do plano estratégico de Levy em ritmo acelerado... Sabíamos que a Gazeta era uma empresa em crise... Há tempos não recolhia o FGTS de seus funcionários e não honrava nenhum dos contratos que assinara com as instituições que a socorrera... De onde será que vem o dinheiro pra tanta expansão? – nos perguntávamos.

        Até que um dia dois diretores da AE – Sandro Vaia e Eloi Gertel – conseguiram marcar um almoço com um consultor empresarial que – sabíamos – conhecia a fundo as movimentações da Gazeta... limitou-se a contar aos perplexos Sandro e Eloi a seguinte anedota:

        - Sentado ao lado de um papagaio, um executivo fazia um voo internacional de longa distância...depois de iniciado o serviço de bordo, ambos fizeram pedidos à aeromoça, que passava pra lá e pra cá sem atendê-los... Em menos de dois minutos de espera, o papagaio já a destratava, xingando-a de tudo quanto é nome... Já o executivo suportou calado a espera de quase uma hora até que, enfim, ensandecido, resolveu imitar o papagaio e também xingou a moça de prostituta pra cima... deu azar, o comandante viu tudo, pegou os dois – papagaio e executivo – e atirou pela janela do avião... O executivo despencando em alta velocidade vê o papagaio, alegrinho, formoso, batendo as asinhas, aproximar-se dele pra dizer: - Pra quem não tem asa, você tem uma coragem que é um espanto!

        Foi a melhor definição do Luiz Fernando Levy que já ouvi: um executivo sem asas, mas com uma coragem assombrosa!

        (No próximo capítulo da série você vai ler tudo sobre o Investnews, o serviço eletrônico da Gazeta Mercantil, e a ideia extravagante de Luiz Fernando Levy de criar o Amercosul) 





10/10/2017

Um doidivanas no comando da Gazeta Mercantil!

        O patrono da Gazeta Mercantil, Dr. Herbert Levy, era pontual. Apoiado na mesma bengala que o acompanhou nos últimos dez anos de vida, foi o primeiro convidado a chegar ao evento que organizávamos em Campinas para lançamento de um guia de cultura e lazer dos municípios que margeiam as rodovias Bandeirantes e Anhanguera.

        Eu dirigia há cinco meses a URN - Unidade Regional de Negócios de Campinas (SP) e já fora informado que Herbert Levy tinha um carinho especial para com o interior paulista de onde saíram os votos que o elegeram deputado federal por vários mandatos...

        Recebi-o, acomodei-o numa poltrona à beira da piscina do hotel Royal Palm Plaza. Ainda envolvido com os preparativos do evento, não tive como dar-lhe atenção, tarefa que repassei a amigos, diretores do jornal em São Paulo, seus velhos conhecidos.

        Assim que me vi livre das preocupações com o evento, aproximei-me dele em tempo de presenciar um diálogo memorável:

        - Retornamos ainda ontem do Nordeste onde lançamos três jornais regionais, informava-lhe um dos diretores da sede, em São Paulo.

        - Três jornais regionais!!?? Mas que maravilha! Esse meu filho Luiz Fernando  é um grande empreendedor, um empresário com uma visão extraordinária...

        - E tem mais, dr. Herbert: no próximo mês, vamos lançar mais três jornais regionais aqui, no interior de São Paulo, disse-lhe o mesmo interlocutor, certamente empolgado pela reação ao informe sobre as iniciativas do Nordeste.

        - Mais três??!! Escuta, não é muito não!?

        Falecido em janeiro de 2002, o dr. Herbert não teve o desgosto de ver o filho entregar sua empresa, já destroçada, ao salafrário Nelson Tanure... E nem chorar pela última edição do jornal (junho de 2009) que ele fundara no longínquo 1922.

        Mas aquele diálogo nas bordas da piscina do Royal Palm Plaza num dia qualquer de setembro de 1998, além de ser premonitório, foi também uma síntese primorosa de tudo o que aconteceria com o maior jornal de economia e negócios da América Latina na primeira década do Novo Milênio...

        Se fosse possível encontrar-me com ele, hoje, eu lhe diria: “Foi muito sim dr. Herbert... E como! Seu filho empreendedor e de visão extraordinária quis implementar em dois ou três  anos um plano estratégico que o bom senso recomendaria execução gradual em 10 ou 12 anos”.

        Nenhuma empresa do mundo teria resistido, por mais sólida que fosse, a tanta ousadia, açodamento e irresponsabilidade...o culpado pelo imenso desastre que se abateu sobre a Gazeta Mercantil, matando-a, foi um homem só e se chama Luiz Fernando Ferreira Levy, falecido em Florianópolis (SC), de causas naturais, aos 72 anos (e não 77, como foi divulgado), na primeira semana de outubro de 2017...

        O plano estratégico que poderia ter levado o jornal Gazeta Mercantil a ser o maior diário de economia e negócios das Américas era consistente e funcionava, como eu mesmo consegui demonstrar com as operações da URN de Campinas !
   
        (Pretendo contar a história dessa comprovação no próximo capítulo desta série; por ora, detalharei o plano estratégico e a ousadia e a irresponsabilidade de sua desastrada implementação!)

MALDITO ANO 2000

        O ano da virada do século – 2000 – foi o melhor ano econômico da história da Gazeta Mercantil! Antes estacionada na casa dos 150/160 milhões/ano, em 2000 as receitas ultrapassaram - e muito! – a casa dos 200 milhões!

        Tornou-se assim um ano maldito, pois foi graças a esse desempenho que Levy afundou o pé no acelerador na implementação de seu plano estratégico, então acrescido da entrada do jornal em televisão ! Foi a chamada “acelerada fatal”!

        Já era pura megalomania, mas Levy decidiu enfiar o jornal de cabeça na TV Gazeta negociando com os diretores da Fundação Casper Líbero, detentora do canal com penetração razoável em São Paulo: “Precisamos aproveitar as benesses da homonimia”, justificava sem detalhar os termos do contrato que certamente impunha ao jornal mais um ônus insuportável!

        Com ou sem talento para TV, jornalistas do impresso passaram a ocupar várias horas de vídeo com uma programação improvisada, sem nenhum planejamento!

MAPA PONTILHADO

        Nido Meirelles, o diretor de circulação, costumava dizer aos diretores regionais:

        - Querem ver o Luiz Fernando feliz, mostrem pra ele o mapa do Brasil salpicado de unidades da Gazeta Mercantil?!

        E era verdade!  Em seus delírios expansionistas, nada animava mais o condutor do projeto que o convite para inaugurar uma nova unidade, para lançar mais um jornal regional ou apenas para participar de um evento que simbolizasse iniciativas e ações estratégicas...

        O plano estratégico era feito de quatro pontos bem demarcados:

        1)- Ocupação horizontal do Brasil com implantação de URNs em todos os mercados dinâmicos, do Oiapoque ao Chuí, literalmente...Para cuidar do Rio Grande do Sul, nomeou o dinâmico Hélio Gama; pra cuidar, lá em cima, do Pará, nomeou a experiente Cíntia Sasse; Guilherme Pena foi cuidar do Triângulo mineiro, território sensível por que era ali que, no município de Romaria, Levy tinha a fazenda onde enfiou, segundo me revelou um empresário de Campinas,  alguns milhões dos recursos do jornal....Em dois anos, nasceram nada menos de 20 unidades da Gazeta, quer houvesse recursos para tanto ou não...

        2)- Ocupação vertical, de todos os mercados dinâmicos, através dos jornais regionais...Ele mesmo definia: “O jornal nacional traz os acontecimentos de economia e negócios do país e do mundo; e o jornal regional – na verdade um caderno de circulação local encartado no jornal-mãe – traz o noticiário dos municípios e deve servir de instrumento para penetração da Gazeta nas comunidades, verticalmente”.
    
        3)- Descentralização da planta gráfica...A Gazeta Mercantil foi pioneira no deslocamento da impressão do jornal para fora da cidade onde estava localizada a planta-matriz (SP). No início, os arquivos do jornal, já diagramado e pronto para impressão, eram transmitidos por um sofisticado sistema a laser...Levy pegou os primórdios do alargamento das bandas de internet e deu como missão aos diretores regionais a viabilização de acordos com gráficas locais que permitiriam a impressão local. ”O leitor da Gazeta em Belém do Pará ou em Manaus vai receber o jornal no mesmo horário em que o jornal é entregue em São Paulo”, orgulhava-se Levy...

        4)- Todas as unidades regionais têm de ser autossuficientes, ou seja, devem faturar o suficiente pra pagar seus gastos locais e bancar os gastos com as operações do jornal nacional...essa era a meta e os diretores regionais tinham de pensar em estratégias que permitissem alcançá-la no menor prazo possível...Preocupado com o tema, Levy começara a mandar alguns diretores regionais até para o exterior com o objetivo de qualificá-los em gestão....



OUSADIA CEGA E CARÁTER GELATINOSO

        Com tantas extravagâncias, o caixa da empresa gemia; mas o condutor não era de se importar com estouros do orçamento. Uma vez, num encontro de diretores e editores do jornal em Uberlândia, enquanto fazia xixi no banheiro do hotel, foi informado que as contratações que ele acabara de autorizar, fariam explodir o orçamento da empresa e ele reagiu: “Xiii! O financeiro vai comer meu rabo!”

        Financeiro e RH tentavam barrar o festival de contratações pois enxergavam com clareza que havia um desencontro feérico entre o ritmo da expansão e o caixa, mas Levy foi implacável ! Em novo encontro das lideranças em Vitória, no Espírito Santo, anunciou a demissão das pessoas que tentavam retardar a implementação de seu plano e foi aplaudido de pé pela plateia que incluía os diretores regionais!

        A irresponsabilidade não era tudo! Luiz Fernando Ferreira Levy levara para o comando da empresa suas duas compulsões: a de não pagar o que deve e a de trair os amigos, não importava o que haviam feito por ele ou por sua empresa...

        Não pagava credores, não pagava nenhuma fatura que viesse do governo e costumava dizer que o governo é que financiaria a expansão da Gazeta... Não cumpriu nenhum dos acordos firmados com as instituições que socorreram a Gazeta (Fundos de Pensão, Bofa, entre outras). Nos últimos tempos, a Gazeta só recolheu o FGTS, de seus empregados de salários maiores, do ano de 2000...

        Era também um traidor inveterado... Traiu a todas as pessoas que o ajudaram – Cláudio Lachini, Mário de Almeida, Roberto Muller, Mathias Molina, Delmo Moreira e tantos outros...Nunca o vi preocupado com os dramas que a sua irresponsabilidade provocou... Soube há pouco tempo que um dos seus mais diletos amigos atirou-se do quinto andar de um prédio em São Paulo; conheço inúmeras outras histórias de sofrimento causado pela falência da Gazeta Mercantil, entre as quais está a do vendedor Alexandre Catani, de Campinas, que teve sua vida completamente desestruturada com a perda da casa, a perda da mulher, a perda da auto-estima... Só recentemente Catani conseguiu emergir da profunda depressão...foi o vendedor mais criativo com quem já trabalhei...

        O saldo de caixa do ano 2000 foi rapidamente consumido pelo tresloucado plano de TV. Tudo indicava, pelo desempenho da receita no primeiro semestre, que 2001 seria tão bom quanto o ano anterior... A sucessão de crises ocorridas a contar de junho – crise do Apagão, crise da Argentina, 11 de setembro – transformou a Gazeta Mercantil em espécie de borboleta perdida em meio à tempestade.

        Tinha mesmo de sucumbir...