10/08/2017

Jair Bolsonaro, a fina flor do populismo! (3)

        Há um consenso nas universidades dos EUA em enxergar o populismo nos dias atuais como uma ideologia rasa que vê a sociedade dividida em dois grandes grupos homogêneos e antagônicos – de um lado está o povo simples e de outro as elites corruptas!

        A definição casa como uma luva com o jeito de agir e discursar do pré-candidato a presidente da República, o deputado do PSC – Partido Social Cristão, Jair Messias Bolsonaro, talvez o político mais populista entre os que já aquecem baterias para o pleito de 2018.

        Capitão da reserva do 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista do Exército, 60 anos de idade, Messias Bolsonaro pode ser definido assim: um político que faz voos rasantes sobre quase todos os temas da realidade brasileira, não se aprofunda em nada e vê o país dividido em dois grandes grupos - a esquerda corrupta do PT e as pessoas de bem que querem produzir e viver em segurança.

        Melhor prestarmos muita atenção nele, desde já! Não dá ponto sem nó e não prega prego sem estopa. Sua plataforma está disponível nas redes sociais e quem não tiver senso crítico aguçado vai-se deixar encantar e até contribuir para levar o país em 2018 a mais uma aventura do tipo Collor de Mello.

        Adora assunto polêmico (homofobia, homossexualismo, armamento dos civis) porque sabe que ao abordá-lo terá mídia gratuita; adora exaltar as Forças Armadas porque sabe que tem crescido a adesão à intervenção militar; adora atacar os programas insuflados pelo PT (cotas raciais, Bolsa Família, demarcação das terras indígenas, etc) porque sabe que assim pode arrebanhar eleitores descontentes com a baderna instaurada pelos governos petistas.

        Seus radares capturam sinal de polêmica em torno de algum assunto ? Então, entrará nele chutando com os dois pés, sem se importar com a  profundidade... Tem alguns poucos méritos e grandiosos deméritos!

        Na contabilidade dos poucos méritos está a denúncia, que ele repete com insistência, de que a esquerda usava os mesmos métodos da Ditadura Militar: matava após julgamentos sumários e sem nenhum direito à defesa! Chamavam esses assassinatos de “justiçamentos”! Uma verdade que ninguém, a não ser ele, tem coragem de denunciar. E denuncia, como já admitiu Fernando Gabeira, ex-militante da luta armada, que a esquerda quis tomar o poder a força para instalar uma outra ditadura, a do proletariado...

        Na conta dos grandes deméritos está a defesa da tortura e o combate sistemático ao que ele chama de “defensores dos direitos humanos”. Quer mídia, mídia e mídia, nem para pra pensar que “Direitos Humanos” não é uma agenda exclusiva dos partidos de esquerda!

        Messias Bolsonaro, um homem que quer ser presidente da República, parece ignorar que o acesso à Educação, à saúde pública, a pelo menos três refeições por dia, à moradia, à água potável, ao saneamento básico, à defesa, a lazer, são direitos humanos que devem ser defendidos por todos os cidadãos, seja lá qual for o partido, a ideologia, a crença religiosa...

        Demagogo, apanha os temas mais complexos e simplifica tudo, cinicamente... Numa longa entrevista ao jornalista Guto Brandão, levada ao ar pela TV Tambaú, da Paraíba, e também disponível na internet, Messias Bolsonaro fala de tudo e conclui com suas três grandes propostas para governar o Brasil: resolver os problemas de segurança, freando a política de direitos humanos; incentivar o comércio multilateral eliminando o Mercosul e  incrementar o turismo garantindo a segurança do turista em todas as regiões do país!

        Típico discurso raso, populista!

        As grandes cidades colombianas – Bogotá, Cali, Medellín - já foram consideradas as mais violentas do mundo nas primeiras décadas do Novo Milênio e em dez anos de aplicação, pelo governo federal, de um programa de alta complexidade, que implicou até em anistia para jovens criminosos, viraram o jogo e passaram a figurar no rol das cidades mais seguras do mundo!

        Para fazer melhor que isso, Messias Bolsonaro já tem no bolso do colete quatro medidas bem mais simples: aliviar a punição a policiais que cometerem abusos; reverter a lei do desarmamento, permitindo que todo o cidadão possua uma arma de fogo; combater “a defesa dos direitos humanos” e manter os criminosos na cadeia, acabando com o regime de progressão de pena!
  
        Dá é pena de quem acredita nessas coisas!

        E assim, ligeiro ligeirinho, ele vai na direção do trono!

NIÓBIO, GRAFENO

        Quem vê os planos de Messias Bolsonaro para o aproveitamento das riquezas de subsolo, sente vontade de chorar! É tudo lindo maravilhoso: só a exploração racional do nióbio (o Brasil lidera com folga o ranking de países com jazidas conhecidas do minério) e do grafeno tiraria o país da miséria e permitiria que ele tomasse, com firmeza, o rumo do desenvolvimento sustentável.

        Quem, entretanto, prestar mais atenção ao que ele diz e propõe vai perceber que tudo não passa de demagogia, capciosidade e mistificação!

        É justamente na mineração que se manifesta a face mais sinistra, selvagem e poderosa do capitalismo brasileiro. Sua ideia de exportar sempre com alto valor agregado não é nova; surgiu há muitas décadas atrás, mas até agora ninguém conseguiu mudanças significativas e continuamos como exportadores de alta tonelagem, sobretudo de ferro, sem qualquer processamento.

        O presidente que ousar mexer na mineração pra valer cairá em menos de um ano e vai-lhe restar, fora do cargo, denunciar as “forças ocultas” que o derrubaram, como fez Jânio Quadros de triste memória!

        Gerações inteiras de operários das minas de carvão em Santa Catarina morreram de pneumoconiose porque os mineradores, ao importar as máquinas para automação da extração, “esqueceram” os aspersores e umidificadores que combateriam o pó nas galerias das minas; agora mesmo, em Paracatu (MG), centenas de pessoas morrem de câncer transmitido pela insalubridade das minas para extração de ouro que segue para o Canadá.

        O desastre de Mariana (MG) é uma demonstração de toda a perversidade da mineração brasileira e, curiosamente, não se ouviu do deputado Messias Bolsonaro um só protesto contra a série de desmandos verificados; nem dele, nem de seus pares na Câmara Federal em grande número na gaveta da Vale do Rio Doce, corresponsável por essa que foi a maior tragédia ambiental da história do Brasil.

        Há pouquíssimos dias, a Justiça anulou a sentença que punia os vários responsáveis pela tragédia de Mariana e não se ouviu uma só voz de protesto no Congresso brasileiro.

        Há pouco tempo, Messias Bolsonaro assumiu a tribuna da Câmara para denunciar a venda aos chineses de jazidas de nióbio em Goiás (apenas 3% das jazidas brasileiras). Conseguiu reverter a operação? Não! Ele continuará a ser uma voz solitária, por sua incapacidade de articulação e sua compulsão em dar a tudo que faz e fala um tom midiático - cacarejo  de ave que se prepara para alçar o maior voo de sua carreira política...

        Se ele quisesse de fato fazer algo em prol da racionalidade na exploração mineral no Brasil, teria gritado, esperneado, para mobilizar seus pares no Congresso e aprovar um novo e decente Marco Regulatório do setorl...

NO VALE DO RIBEIRA

        Por que será que Messias Bolsonaro escolheu o Vale do Ribeira, a região mais pobre do estado mais rico da Federação (SP), para apresentar a sua proposta para a exploração do grafeno? Tenho minhas suspeitas: ele quis na verdade matar vários coelhos com uma só cajadada! É muito esperto !


        O Vale do Ribeira, em primeiro lugar, é emblemático para representar o fracasso das esquerdas que ele tanto combate: por ser uma região pobre, foi escolhida pelo líder guerrilheiro, o capitão Carlos Lamarca, para implantar um primeiro foco de guerrilha, dizimado pela Ditadura Militar. Bolsonaro exalta os militares, exalta a tortura, condena o “justiçamento” de pessoas pela esquerda e a guerrilha de Lamarca foi uma síntese de todas essas iniquidades - de um lado e de outro!

        Todos os estados brasileiros, segundo os organismos de mineração, possuem jazidas de grafite, portador natural do grafeno, mas a jazida do Vale do Ribeira, até agora não dimensionada, é a única localizada em área indígena, um prato cheio para o candidato açular as suas várias “teorias demoníacas” contra as bandeiras do PT:

        - Esta reserva aqui - do Vale do Ribeira - foi criada pela Funai há pouco tempo para cerca de 70 índios, alguns inclusive trazidos do Paraguai!

        - Dentro de praticamente todas as reservas indígenas brasileiras há jazidas  importantes de minérios, alguns preciosos como o nióbio e o grafite!

        - A reserva Ianomâmi e a reserva Raposa Terra do Sol serão destinadas à formação de nações independentes no futuro!

        Ele não diz que os índios de Roraima, da Raposa Terra do Sol, contrabandeiam nióbio através de ONGs internacionais, mas coloca nos vídeos de campanha várias pessoas “denunciando isso”... O negócio de Messias Bolsonaro é bem esse: deixar que os mitos se espalhem e se agigantem, pois o eleitor enxergará nele o único candidato capaz de “destruí-los”... Por que ele não assume essa bobagem?

        Porque sabe que é bobagem: a incidência de nióbio sobre cada metro cúbico minerado é tão pequena que as “ONGs Internacionais” teriam de instalar um canteiro de mineração gigantesco na reserva indígena, algo que poderia ser identificado facilmente por satélite!

        OBS – Quem tiver interesse em conhecer mais sobre o nióbio e toda a polêmica que ele desperta entre aqui: http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2013/04/monopolio-brasileiro-do-niobio-gera-cobica-mundial-controversia-e-mitos.html

Bolsonaro discursa na Câmara




 Extração de nióbio em andamento nos arredores de Araxá, cidade situada no sul de Minas

Reservas indígenas dos Ianomâmis

Reservas indígenas Raposa Terra do Sol


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