30/10/2015

O Homem e a Cadeira de Rodas (4)

        Guilherme Travassos, um leitor da minha crônica “O homem e a cadeira de rodas (1)”, escreveu-me para se excluir, com justa razão, do grupo de pessoas que enxergam o cadeirante por baixo de uma nuvem de preconceito como me referi à maioria das pessoas da sociedade no Brasil. “Sempre que posso, ajudo sem que me peçam”, disse-me Guilherme.
        Na verdade, com a crônica, quis dizer que temos um longo caminho pela frente na guerra pelo fim dos preconceitos e pessoas como Guilherme Travassos terão de marchar junto com todos nós para ensinar as pessoas a olhar para o deficiente com mais sensibilidade e clareza.
        Outro leitor, Antônio Celso Zangelmi, foi mais longe; ao comentar a mesma crônica, mostrou  que o preconceito é típico brasileiro, pois em países como os EUA “é punido com severidade”. Celso chamou ainda atenção para o fato de que um dos mais respeitados cientistas do mundo – físico teórico e cosmólogo britânico Stephen Willian Hawking – é cadeirante e portador de ELA, Esclerose Lateral Amiotrófica, em estágio avançado. Stephen atrofia em cadeira de rodas e ainda assim tem conquistado medalhas, honrarias e prêmios por relevância de seus estudos.
        Isto sem nos esquecermos de que uma das mais brilhantes deputadas brasileiras, Mara Gabrilli (PSDB-SP), é tetraplégica, ou seja, perdeu em acidente de trânsito todo o movimento de pernas e braços. Ainda recentemente, Mara foi representar o Brasil em reunião do Comitê sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência das Nações Unidas. Mara, que ocupa atualmente o cargo de terceira secretária do Congresso Nacional, faz de sua atividade política um libelo em favor da acessibilidade a portadores de necessidades especiais.
        Outra mensagem bem estimulante veio de minha sobrinha, Lúcia Diniz, médica dermatologista, referência nacional em hanseníase. Ela reside em Vitória, no Espírito Santo, de onde me escreveu o seguinte:
        “ Fico triste em ler sobre as suas histórias de cadeirante, pois uma coisa é a gente ser cadeirante, a outra é "aceitar" ser cadeirante. Talvez o que conserve a minha mãe do jeito que é, ainda jovem aos quase 80 anos, foi negar-se a ser "velha". Se vivermos muito, seremos velhos, mas não significa que tenho de assumir determinadas coisas, que as pessoas consideram ser "dos velhos".
        Ganhei o livro "Sempre em movimento, OLIVER SACKS, uma vida"; biografia deste médico neurologista inglês, mas que adotou os EUA para seguir a sua profissão. Escreveu vários  livros, mas este, no penúltimo capítulo, se refere aos sequelados de AVC e os caminhos que o cérebro pode recriar em outras áreas diferentes daquelas que foram atingidas pela isquemia e melhorar ou solucionar algumas alterações provocadas por ela. Vale ler o livro e fazer os exercícios tentando criar estes novos caminhos.
        Abraços a todos e muita força!”

(Cadeirante no Brasil)

26/10/2015

O Homem e a Cadeira de Rodas (3)

        Eu proibi meus filhos de terem e pilotarem motos; nunca concebi a ideia de ter uma delas, nem depois de ter assistido a Easy Rider. Em outras palavras, a fantasia de que a moto amplia sua liberdade nunca me seduziu; que me desculpem os apaixonados por motos e os fabricantes, mas moto para mim sempre foi símbolo de morte súbita ou de tragédia familiar das mais pesadas e aflitivas.
        Se tivesse algum poder no Brasil, proibiria o uso de motos para entregas ou faria cumprir com grande rigor, em toda cidade brasileira com mais de 50 mil habitantes, aquilo que determina o Código Nacional de Trânsito ao estabelecer que a moto deve ocupar o lugar de um veículo de quatro rodas no trânsito, lei que nunca foi obedecida.
        O atestado de que sempre agi com acerto está lá no Instituto Lucy Montoro (rede de reabilitação mantida pelo SUS e apoiada pelo governo do Estado de São Paulo) onde não param de chegar os acidentados de motos, vindos de todas as regiões do país; chegam geralmente paraplégicos, ou seja, uma das versões mais graves da lesão medular, pois a paralisia atinge as duas pernas. Eles não se livram facilmente da cadeira de rodas.
        Para eles, o peso da cadeira de rodas é geralmente bem maior pois estavam acostumados com ampla mobilidade, aniquilada de uma só vez por um acidente que não costuma poupar nem condutores e nem caroneiros; por mais brutal que tenha sido o acidente, nem sempre este consegue destruir a paixão que muitos sentem por elas, as motos, algo patológico.
        Não me esquecerei facilmente dos dois irmãos baianos que conheci no Lucy Montoro, um deles “premiado” com uma paraplegia adquirida em acidente com sua moto de alta cilindragem; seu sonho era voltar a andar para poder comprar uma moto ainda mais possante que aquela que o levou, talvez para sempre, a uma cadeira de rodas.
        Deu no Jornal Nacional há cerca de três meses:
        - Os números para quem anda de moto nas ruas brasileiras são preocupantes: 12 mil pessoas morrem por ano em acidentes com esse tipo de veículo. Uma pesquisa feita pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia identificou o perfil dos acidentados. Quase 90% são homens. A maioria, jovens, entre 18 e 30 anos. E mais da metade usa a moto pra trabalhar.


21/10/2015

O Homem e a Cadeira de Rodas (2)

        Lembro-me de seu rosto lindo, cativante e expressivo;  magra, deveria ter quando muito 33/34 anos;  almoçamos com ela poucas vezes, mas o suficiente para gostarmos dela e sentirmos sua falta nos dias em que nos mantivemos no Lucy Montoro depois que ela teve alta. Não tinha ou não vivia com o marido. Não me lembro mais de seu nome. Falava sem constrangimento sobre sua vida:
        - Tenho cinco filhos, o maior tem 14 anos; os dois gêmeos, de sete anos, são os mais difíceis de controlar; são impossíveis!
        Foi por causa dos gêmeos que ela está em cadeira de rodas, paraplégica; foi tentar salvá-los de uma queda de cima do telhado de casa e quem acabou caindo foi ela.
        Passou 45 dias hospitalizada – 15 dias na UTI e mais 30 dias no quarto. Saiu do hospital (SP) e foi direto para a fisioterapia intensiva do Instituto Lucy Montoro. Quando a conheci na copa do sétimo andar, estava já em seus últimos dias de internação no Lucy.
        Sentei do lado dela na copa e perguntei-lhe:
        - Como é, está com saudade dos filhos, ansiosa para voltar pra casa ? -- Arregalou os olhos e disse:
        - Estou é com bastante medo, nem imagino o que eles vão fazer comigo nesta cadeira de rodas ! Isto para eles vai ser como um super brinquedo...



16/10/2015

O Homem e a Cadeira de Rodas (1)

        O telefone, em casa, fica a uns 20 metros do computador, frente ao qual eu passo várias horas ao dia, trabalhando; sempre que o telefone toca e minha mulher, Susana, atende, fico atento; geralmente, quando querem falar comigo, eu percebo e já me desloco em direção ao telefone; meus interlocutores esperam por mim o menor tempo possível.
        Ainda outro dia o telefone tocou, Susana atendeu e não demorei a descobrir que era um amigo lá de Santa Catarina que queria falar comigo; minha mulher disse: “Ele está no computador, espera que eu vou lá buscá-lo e o trago aqui rapidamente”. Falei com ele, matei a saudade mas não engoli aquele “vou lá buscá-lo” de Susana. Soou para mim como uma redução das minhas possibilidades.
        Uns dois dias depois conversávamos à mesa do almoço, eu, Susana e nossa nora, Sílvia, e falávamos de um sobrinho pelo qual eu tinha a maior consideração e que me deixou bastante indignado por sua atitude: morou em casa durante vários anos, de repente saiu para casar, ter filho, e se afastou da gente sem dizer sequer um obrigado; moramos hoje a menos de 100 quilômetros um do outro mas ele nunca veio nos visitar; deu uma de cachorro magro; sabe que eu adoeci gravemente, que baixei em cadeira de rodas, mas ele nunca mais me visitou, nem sequer me deu um telefonema.
        Nessa conversa de almoço, Susana, que de vez em quando se fala por telefone com a mãe do rapaz, sua irmã, me disse que ele e a mulher, que eu ainda não conheço, estão desempregados, passando por dificuldades. Eu então pus para fora um pouco da minha indignação com o rapaz:
        - Nem quero saber como ele anda ou deixa de andar, não me interesso mais por ele. Não pretendo mais ajudar.
        Nesse instante, Susana soltou um sorriso irônico e fez seu comentário cruel:
        - Você ajudar? Você não consegue mais ajudar a si mesmo e como vai conseguir ajudar os outros?
        Reagi com mais indignação e tristeza; chamei-a ao computador meia hora depois e mostrei a mensagem que havia passado naquela manhã a nosso filho Edu, engenheiro de alimentação. Era um relatório que um amigo de São José dos Campos, a meu pedido, havia me passado sobre as indústrias do Vale do Paraíba. Um verdadeiro guia de mercado. Era eu tentando ajudar nosso filho. Ela leu, compreendeu e pediu-me desculpas, bem arrependida do que disse.
        Eu fiquei ali com minhas reflexões; na cadeira de rodas, tempo é o que não nos falta para reflexão. Porque é que as pessoas que gostam de mim com intensidade, como Susana, cometem esses gestos falhos de avaliação das possibilidades reais de um cadeirante? Eu me perguntei sem demorar a encontrar uma resposta.
        É a maldição da cadeira de rodas, um símbolo forte de impossibilidades, capaz de esconder competências, habilidades, tirocínio intelectual, virtudes que, graças a Deus, o AVC não me tirou. Ela, a cadeira de rodas, joga a pessoa sempre para trás, nunca para frente. Não é à toa que a sociedade vê o cadeirante com uma montanha de preconceitos e desprezo, um estorvo para as pessoas normais.


13/10/2015

A maldição da Lava Jato

        As empresas que tiveram seus principais executivos presos por envolvimento na Operação Lava Jato (Camargo Correia, Odebrecht, como exemplos) terão de ser reinventadas quando a tsunami passar. A Lava Jato passará, mas sua maldição permanecerá, como se tivessem derrubado um barril de ácido sulfúrico na estrutura da empresa que vai agir silenciosamente até matá-la.
        Gigantes familiares como a Odebrecht terão de ser profissionalizadas, os membros da família com envolvimento direto devem ser afastados; profissionais de mercado, com biografia ética, devem ser contratados para conduzir a empresa dali em diante; a fase da propina, da corrupção, do pixuleco, do tráfico de influência tem de ser encerrada imediatamente, se a empresa pretende continuar viva.
        Falo de comunicação empresarial e dos reflexos pesados, fortíssimos, incontornáveis,  disparados em cima da corporação pelos eventos heterodoxos; a comunicação interna foi ferida de morte e isso é o mais grave que pode acontecer a uma empresa.
        Afinal, o que é comunicação interna? É aquela comunicação travada exclusivamente entre colaboradores da mesma empresa. Ela é uma espécie de matriz de todas as demais comunicações. Para praticá-la, todos e em especial quem ocupa postos de comando têm de ter credibilidade, algo que é construído ao longo do tempo pela conduta ética.
        O comando dessas empresas envolvidas em corrupção deram o pior dos exemplos ao órgão corporativo; é como se tivessem assoprado a todos que trabalham: roubem como nós roubamos, esse é o caminho.
        Devem-se preocupar, essas empresas, em redigir um rigoroso código de ética após a profissionalização; a preparação desse código precisa envolver a todos e ter o comprometimento amplo, geral, irrestrito de toda a corporação, numa preparação democrática, cuidadosa para que ninguém que trabalhe na empresa fique de fora; este é o único caminho, se a intenção for deixar a tsunami para trás e correr mais rápido que ela, distanciar-se dela no menor prazo.


08/10/2015

A volta nada triunfal do Rei Barbudo

        Ele bateu, bateu e bateu até conseguir entrar novamente; não existe pessoa tão obcecada pelo poder quanto ele. Acho mesmo que morreria de tédio se não lhe abrissem a porta. Ele não vive sem o “puder”, como dizem os coronéis nordestinos. Precisa estar lá, se não for para tirar o país do buraco, onde ele, sua discípula e sua turma de saqueadores o colocaram, para terminar de encher suas burras e as de seu filho, riquinho.
        Atribuem-se a ele algumas das mais importantes mudanças ocorridas no governo; outras mais devem ocorrer; é só uma questão de tempo.
        A mudança mais importante até agora foi a saída de Aluísio Mercadante da Casa Civil, despachado para o Ministério da Educação. Triste momento este, a que chegamos! Quando alguém não serve para ocupar uma pasta importante, estratégica, atira-se o “maldito” nesse “depósito de lixo” que alguns ainda insistem em chamar de Ministério da Educação!!!
        É o jeito de ser do Rei Barbudo: fez questão de botar no lugar de Mercadante seu amigo do PT, Jaques Wagner; Jaques estava na alça de mira da presidente por ser – dizem os mexericos do Planalto – muito preguiçoso. Deve ter trazido para Brasília a malemolência típica da Bahia, estado que governou até há pouco tempo. Não comparecia a reuniões com a presidente marcadas para começar antes das 10 horas da manhã. Agora é ele, Wagner, quem assopra recados do Rei Barbudo no ouvido da discípula, recados que podem ser assoprados, é claro, depois que todos ali estiverem bem despertos, após o meio-dia.
        Outro que ganhou mais poder no governo foi Ricardo Berzoini (PT), que havia sido depositado no Ministério das Comunicações desde o primeiro mandato da discípula. É aliado do Rei Barbudo; deram para ele a Secretaria de Governo, nova pasta surgida da fusão da Secretaria de Relações Institucionais com a Secretaria Geral da Presidência. Só não tiveram coragem de colocá-lo novamente no Ministério da Previdência: vai que ele resolve fazer um novo recadastramento dos aposentados e obrigue velhinhos de 100 anos a comparecer pessoalmente às agências bancárias... Não pegaria bem para as circunstâncias.
        Na Previdência, que absorveu agora o Ministério do Trabalho, foi colocado o gaúcho e petista Miguel Rossetto, talvez o político mais indignado com o fim trágico do petismo que se prenuncia. Não vaie o governo ou o Rei Barbudo perto dele; é capaz de surtar. Nunca se viu tamanha lealdade!
        E assim, de Wagner, Berzoini e Rosseto foi preparada a cama e o cenário para o retorno do Rei Barbudo; é claro que ele tem outras cartas na manga e a principal delas é , por certo, o velho Henrique Meireles, a ser convocado mais uma vez para por ordem na economia.
        Não acredito que haverá tempo; ainda nesta quarta-feira – 7/10- o Tribunal de Contas da União julgou as contas da discípula relativas a 2014 e as reprovou. O governo tentou esconder dos brasileiros um rombo orçamentário de US$ 120 bilhões, com as chamadas pedaladas fiscais.
        Já havia batido o desespero no Planalto; primeiro, tentaram derrubar o relator do TCU, Augusto Nardes, e agora tentam desmerecê-lo, fazendo circular pela Internet “denúncias” de que ele estaria envolvido em falcatruas. O Rei Barbudo é nordestino e deve ter trazido do Agreste o mau hábito de dar tiros nas pombas por achar que elas é que produzem a seca. Puro delírio para tentar escapar da maldição do índio, implacável.
        Agora é esperar por dois ou três meses para assistirmos à queda, que tem tudo para ser ruidosa.

(Lula, Jaques Wagner, Miguel Rossetto e Ricardo Berzoini, novos reis do Planalto, todos  barbudos)

02/10/2015

Governar é escolher

        Atribui-se a Pierre Mendès France, primeiro ministro francês no período que vai de 18 de Junho de 1954 a 23 de Fevereiro de 1955, a frase “governar é escolher”, uma verdadeira bússola a nortear o poder em todo o planeta. É necessário, entretanto, complementá-la para deixá-la uma perfeição: “governar é saber escolher”, eu a diria.
        Os assessores escolhidos com sabedoria ficam, deixam marcas características por onde passam, dão contribuições sempre notáveis ao espaço que ocupam; os governantes passam mas os “bem escolhidos” permanecem para sempre no imaginário das pessoas beneficiadas. São eternos.
        Quero, com isto, propor alguns exercícios de memória ao leitor: alguém sabe dizer o nome dos 39 ministros da Dilma? Tente ainda lembrar-se de apenas 10 deles. Se não trabalhar no governo ou conhecer a lista por obrigação, não há brasileiro que alcance a façanha – talvez se lembre do nome de dois ou três, mais pelo mal que fizeram que pelas contribuições que deram ao Brasil e aos brasileiros. Eu mesmo, que sou jornalista da velha guarda, lembro-me de cinco nomes, se tanto. Nenhum pelo bem que tenham feito, exceto Afif Domingos, que criou o programa do empreendedor individual, um sucesso, verdadeira bolha em meio à turbulência da crise em geral.
        Afif, que assumiu uma pasta castrada, manietada, foi talvez a melhor escolha da Dilma. Os demais nomes estão na minha memória pelo mal que fizeram – e ainda fazem – ao Brasil e aos brasileiros. Cardoso, da Justiça, teve o desplante de tentar uma reunião secreta com os advogados das empreiteiras envolvidas na Lava Jato; Mercadante, hoje o grande inimigo do Lula, fez cocô sobre a biografia ao encomendar um dossiê falso sobre José Serra; Mercadante, de volta agora ao Ministério da Educação, ficará no imaginário de quem viveu esta época, de reinado petista, como o homem que encomendou um dossiê falso para tentar destruir um adversário.
        Lembro-me também de Joaquim Levy e Nelson Barbosa, um desastre, dois tecnocratas contumazes conduzindo a economia num período de morro acima. Já defendi a imediata demissão da dupla em artigo anterior. Quem sabe, agora Lula ou o PMDB, façam por ela o que ela não teve sensibilidade para fazer. A dupla chega a ser pior que a solução Guido Mantega, o primeiro grande erro das escolhas de Dilma.
        O grande culpado da situação em que vivemos chama-se, contudo, Luiz Ignácio Lula da Silva. Foi ele que escolheu Dilma. Fora os mistérios que devem existir na relação entre os dois, sabe-se que Lula a escolheu pela capacidade de se impor a empresários e outros poderosos da República; é verdade, ela se impôs a todos que dependiam dela quando responsável pelo setor elétrico, como exemplo; se impunha por ameaças. Estive com vários empresários do setor elétrico nesse período e constatei: Dilma para eles era um bicho mais feio que o capeta.
        Esqueceu-se seu criador que nenhuma liderança se impõe pelo medo e sim pelo respeito. São coisas tão diferentes quanto a água e o vinho.  


(Afif Domingos, única boa escolha de Dilma, posto para fora do governo nesta "reforma" ministerial)

23/09/2015

O papel na guilhotina

Dirceu Martins Pio - artigo publicado em 16-abril-2013 no Observatório da Imprensa, reaproveitado agora por ser ainda muito atual:


        A crença na sobrevivência do papel como meio para transporte de informação caiu no fundo do poço. Devem existir muitos donos de jornal, inclusive, que não acreditam mais nela. O assunto já pode ser trazido para uma adaptação da lei de Murphy: se ninguém mais acredita que algo pode dar certo, com certeza não dará certo. Temos mais é que nos preparar para as perdas que advirão com o fim – adotemos um nome genérico – da imprensa.
        Os detratores do papel parecem estar certos. Quem determina a sobrevivência ou a morte de um produto ou de um serviço é, em última instância, o consumidor ou, digamos assim, quem paga pelo benefício. Nem sempre ele é racional ou usa a balança para pesar perdas e ganhos. Pensa mais nos ganhos – ainda que ilusórios – e faz a substituição. Que se dane o mundo porque eu não me chamo Raimundo.
        Vejam o que fizeram com os cinemas (refiro-me às salas de cinema, os locais físicos onde comparecíamos para ver filmes): embora comecem a voltar aqui e ali, ilhados em centros de comércio ou shopping centers, como queiram, foram de uma vez simplesmente destruídos pela televisão e seus VTs, CDs e DVDs. E o massacre continuou com as cinematecas da internet. E isto sem que tivessem inventado algo que nos proporcionasse, ao menos de longe, a sensação fascinante de ver um filme na tela grande e com a sonorização de uma sala de cinema. Era como se estivéssemos sentados no topo do mundo e em condições de acompanhar uma história, um drama, uma aventura ou uma comédia, que se desenrolava em nossa frente, como se atores e atrizes quisessem nos reverenciar. A sala de cinema era puro deslumbramento.
        Vemos filmes hoje em ambientes domésticos, em telas menores, com som de qualidade relativa, submetidos às interferências de crianças, às vezes de cães e gatos, ou dos mais velhos que cismam de fazer piadas diante das cenas picantes ou densas. Isso também é cinema? É difícil admitir que seja, mas é. Tem também os seus poucos atrativos.
        Eu já não consigo defender o papel a meus interlocutores de rotina, amigos, jornalistas, filhos, parentes próximos ou distantes. Ninguém mais me permite. Nem me deixam falar e disparam as críticas impiedosas de sempre: “Suja as mãos; a internet tem tudo; a qualidade dos jornais e revistas tem caído como um viaduto.” E por aí vai… O jornalista Luciano Martins Costa, em seu comentário radiofônico reproduzido em texto no Observatório de Imprensa, deu o tom do pessimismo que parece ser endêmico no planeta: “O mundo das grandes tiragens de papel ficou para trás: hoje, uma venda real de 200 mil exemplares sustenta a ilusão de que jornais têm valor como mídia publicitária e as agências de publicidade são cúmplices nessa farsa, porque o desmanche do modelo também torna sem sentido seu negócio tradicional”.
        Não consigo dizer que eu também vejo o problema assim. O papel preserva uma grande parte de sua carga publicitária porque continua a ser eficaz na venda de produtos ou mesmo no posicionamento de marcas e empresas, através da publicidade institucional ou legal. Não fosse assim, a web bastaria para a venda de imóveis, por exemplo. As corretoras, que aproveitam mal a eficácia da web, ainda dependem muito dos jornais para alcançar grande parte de seus resultados.
        Mal sabem os desesperançados que a maioria das informações organizadas, tratadas, hierarquizadas que encontramos na internet é fornecida pela velha e “desprezível” imprensa. Enquanto o papel estiver de pé, teremos essas informações disponíveis na internet de modo organizado, ainda que tenhamos de pagar por elas a partir de agora. No dia em que o papel desaparecer vão desaparecer também essas informações. Até agora, a web não conseguiu remunerar com adequação o trabalho – dispendioso – de captação, processamento e edição de informações de qualidade. O problema é que os impressos já não conseguem manter a qualidade da captação – os conteúdos enfraquecem.
        O computador aposentou a antiga máquina datilográfica com vantagens extraordinárias. A tecnologia digital de captação de imagens já aposentou grande parte das antigas películas de acetato e introduziu no mundo da fotografia uma flexibilidade de produção e uso que causa espanto. Parece-me evidente que as tecnologias digitais, a despeito de todas as vantagens a ela atribuídas na distribuição de informações, ameaçam aposentar o papel com a preservação de muito menos benefícios.
        O melhor dos mundos na distribuição de informações seria aquele em que o universo digital apenas subsidiasse ou complementasse o papel em seu mister de oferecer à sociedade aquela dose hierarquizada de informações que a rigor todos deveríamos consumir diariamente. Como, ao que parece, a fórmula ideal torna-se a cada dia mais inviável, a previsão dos especialistas, no mundo inteiro, é de que o jornalismo vai piorar muito antes de voltar a melhorar. Talvez o papel possa desaparecer agora para reaparecer lá na frente dentro de novos modelos de negócio, assim como aconteceu com as salas de cinema.
        A internet é um meio que já nasceu sob regime anárquico e sem a menor credibilidade. Já nos habituamos a perguntar: “Isto é verdade ou é coisa da internet?” A credibilidade do papel, seu caráter documental, seu poder de “tornar pública” a informação, vão, evidentemente, desaparecer junto com ele. Também desaparecerá essa enorme flexibilidade de uso – o jornal, você leva para onde quiser e para ler não precisa dispor de tela de computador, de sinal de satélite, de cabo, de energia elétrica, a menos que a pessoa queira ler o jornal à noite.
        Ler uma notícia na tela de um computador é um exercício no mais das vezes cansativo, especialmente para os leitores mais idosos, com vista cansada. Ler o jornal costuma ser um exercício agradável pelo desvendamento que proporciona.
        O jornal agrupa as informações e a web as espalha. É difícil imaginar que a web consiga emular o mesmo senso de hierarquia. Vejo, contudo, que é impossível lutar contra a correnteza que ameaça levar o papel para o bueiro. Rezemos para que os chamados publicadores acordem de sua letargia e tenham tempo de estruturar novos negócios no mundo digital antes de perderem os negócios antigos que foram extraordinariamente lucrativos.

18/09/2015

A história sempre explica

        Ela aplicou uma rasteira e derrubou um homem que carregava uma pequena criança no colo enquanto corria para ingressar, o mais rápido possível, na Hungria; depois chutou com violência várias outras pessoas, inclusive crianças, que haviam acabado de atravessar a fronteira com a Sérvia. Era loira, usava máscara no rosto como se lidasse com pessoas portadoras de doenças infectocontagiosas, tem 40 anos, seu nome é Petra Laszlo, húngara, e estava ali como cinegrafista de uma agência noticiosa da Hungria, da qual, dizem, foi demitida tão logo espalhou-se pelo mundo as imagens de sua “admirável ação”, dia 11 de setembro, na fronteira da Hungria com a Sérvia, hoje cercada por um muro bastante alto e encimado por um rolo de arame farpado.
        Fiquei abismado com as cenas protagonizadas por Petra; o bicho-homem é capaz de se superar a cada dia que passa!
        Aqui no meu canto, realizei uma rápida imersão na história da Hungria para ver se, nela, encontrava alguma explicação para gestos tão obscenos, tanto os gestos de Petra como os gestos do governo húngaro e seu “moderno” muro da vergonha. Não precisei ir muito longe. Encontrei vários episódios e informações interessantes já no século passado!
        A Hungria sempre foi um país bastante belicoso; localiza-se na Europa Central, vive basicamente do turismo e tem alta renda per capita e alto IDH-Índice de Desenvolvimento Humano; já tinha ouvido falar de seus maravilhosos lagos termais e sonhava conhecê-los. Sonhava, não sonho mais; jamais vou querer visitar países que se recusam a acolher refugiados e erguem paredões para impedir a entrada de “despatriados”.
        Curiosamente, a Hungria foi um dos países onde o holocausto, sob comando de Hitler, mais se aprofundou. Em julho de 1941, o governo (Bardossy) deportou da Hungria 40.000 judeus. Como forma de agradar à Alemanha, Bardossy aprovou a Terceira Lei Judaica, que proibia o casamento e relações sexuais com judeus. Estes sofreram perseguições econômicas e políticas durante a administração Kállay, mas o governo protegeu-os da “solução final” (Extermínio Total dos Judeus na Alemanha e nos países ocupados).
        Após a ocupação da Hungria pelos nazistas, começaram as deportações de judeus para campos de concentração na Polônia, supervisionados pelo coronel SS Adolf Eichmann, julgado e enforcado em Israel em 1961. Em maio e junho de 1944, a polícia húngara deportou cerca de 440.000 judeus em mais de 145 trens, a maioria para Auschwitz. No total, mais de 533.000 judeus da Hungria foram mortos durante o Holocausto, bem como dezenas de milhares de ciganos.
        Os judeus sempre estiveram presentes na Hungria, desde os primórdios da Idade Média, e a maior sinagoga da Europa se localiza em Budapeste, a capital do país. Declaram-se judeus hoje apenas 0,1% de toda a população húngara, de um total que se aproxima de 10 milhões.


(De repente, aparece o rosto desnudo de Petra; na cena seguinte, ela entra em ação)

13/09/2015

Brincadeiras e malvadezas da Dilma

        Conheci um empresário que levou sua empresa à falência, rápida, retumbante, por executar em dois anos um plano de desenvolvimento que a sensatez e a prudência recomendavam implementação em 10 ou 15 anos; a pressa e a ousadia destemperada levaram para o buraco e para o sofrimento centenas de pessoas que tiveram de assistir, impávidas, à ruína de um negócio que tinha solidez e futuro próspero se administrado por uma pessoa mais capaz e mais prudente.
        A mesma coisa ocorre hoje com o Brasil; uma presidente incapaz, inexperiente (Dilma), assessorada por pessoas açodadas no Planejamento (Barbosa) e na Fazenda (Levy) decidiram fazer em dois anos ajustes que deveriam ser feitos devagar, ao longo de oito a dez anos. Parece claro que vão matar o doente por excesso de remédio.
        Em cinco anos – contando com maior equilíbrio climático – pode-se reestruturar a matriz energética e recompor tarifas. Em dois anos, buscar a recomposição da tarifa em época de estiagem e outras intempéries, é quase matar a galinha de ovos de ouro – a classe média – que poderia responder pelo crescimento da economia em níveis razoáveis.
        Ministros da Fazenda e do Planejamento mostram-se peritos em tecnocracia e neófitos em política; tanto um (Levy) como o outro (Barbosa) deveriam ser substituídos imediatamente, antes que seja tarde demais.
        Pressa, açodamento, é a marca principal de um governo que parece brincar, sadicamente, com os interesses da sociedade; enviar  para o Congresso um orçamento com déficit de 30 bilhões de reais é brincadeira de mau gosto; e a primeira consequência daninha desse gesto apareceu com sua face dramática – a retirada do grau de investimento pela  Standard & Poors; e não é nada improvável que as demais agências classificatórias de risco imitem a Standard.
        É tudo muito óbvio: primeiro, o governo deveria dar a sua parte no ajuste – cortar ministérios, cargos de confiança, desmobilizar patrimônio, cortar uma montanha de gastos supérfluos, reduzir para menos da metade os cargos de confiança, etc etc etc. Depois, persistindo o déficit, fazer um esforço de repor grande parte do dinheiro roubado da Petrobras, Nuclebras e outras fontes de corrupção. O orçamento do próximo ano, inclusive, deveria ter uma rubrica com previsões seguras do retorno do dinheiro desviado.

      Em seguida, promover, com ajuda do Congresso, ampla reforma tributária para tornar a carga menos onerosa para a classe média e mais pesada para a classe de alto poder aquisitivo. Se todas essas coisas forem feitas com competência e aguçado senso de justiça  veremos que grande parte dos problemas desaparecerá.
          Pior de tudo é a falta de transparência, a tentativa de enganar o público. Exemplo: quem vê as declarações oficiais, vai pensar que a Caixa Econômica voltou a operar com créditos ilimitados no financiamento da casa própria; na prática, o que se vê é um súbito aumento da burocracia para se tomar um crédito e restrições nunca vistas antes.
        O país foi parado a pontapés, e a sociedade onerada por uma política econômica estúpida, desumana, imbecil. Não se pode parar tudo de uma vez: a sensatez recomenda que, ao se fechar uma torneira aqui, outras tantas sejam abertas acolá; é através de um jogo bem pensado e bem concatenado que se avança, sem causar tanto sofrimento e tanto retrocesso.
        Também não há como contar com alguma sensatez e criatividade no combate à inflação a não ser o já velho mecanismo de aumento dos juros pelo Banco Central, juros esses colocados novamente na estratosfera. Gastos governamentais sem controle também são altamente inflacionários!
        O real, pela primeira vez desde o surgimento, em 1993, está sob forte ameaça de destruição. E a equipe econômica se mostra inflexível, dura, com os olhos fixos na dianteira, sem olhar para os lados e muito menos para trás. O país precisava de asa delta à frente da economia e lá puseram dois tratores-esteiras com claro objetivo de moer tudo o que encontrassem pela frente.
         Quem tiver fé, trate de rezar.

(Barbosa, Dilma e Levy, que nova perversidade estariam tramando?)

08/09/2015

Refúgio da crueldade!

        Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, que embalde desde então corre o infinito...  Onde estás, Senhor Deus?... 

        Não há como não lembrar de Castro Alves, em seu memorável “Vozes d’África", ao assistirmos ao drama desses povos que partem em embarcações precárias em busca de vida digna em outro continente; a impressão é que Deus esqueceu-se mesmo dessa gente !
        Aquela imagem do menino sírio encontrado morto na praia  está armazenada na minha alma sem tempo para se apagar. Era tão pequeno o menino, tinha apenas dois anos de vida, e fora arrastado pela família para seguirem ao encontro da morte em mar revolto. Só mesmo o Holocausto ou a Guerra do Vietnã para produzir cenas de tanta crueldade.  Guerras, pobreza, repressão política e religiosa são alguns dos motivos que fazem milhares de pessoas saírem de seus países – Síria, Eritréia, Afeganistão – em busca de uma vida melhor no continente europeu.
        Nilüfer Demir, uma fotógrafa da imprensa turca, fotografava um grupo de imigrantes paquistaneses na praia quando encontrou o corpo sem vida de Alan Kurdi. Ela mesma não soube prever que sua foto provocaria tanta comoção no mundo.
        Refúgio da crueldade, só agora os governos dos países ricos da União Européia começam a ter alguma sensibilidade para perceber o drama desses refugiados; começam a abrir as fronteiras contando cada pessoa que entra em território nacional como se contam animais prontos para abate.
        Não deveria ser assim. Gente não é bicho, gente faz falta, principalmente nesses países velhos, que há muito tempo não crescem mais. E sabem por que não crescem? Porque o consumo não cresce. Sabem por que o consumo não cresce? Porque falta gente para consumir.
        A tese do antropólogo paulista José Almeida Marins Filho é justamente esta: os velhos países do Velho Continente vão um dia ter de “importar” consumidores para resolver seus problemas de estagnação econômica. Deveriam pois receber essas famílias deserdadas por suas pátrias de braços abertos, como quem recebe uma dádiva divina e não como quem recebe uma maldição.

        Talvez a morte do pequeno Alan Kurdi não tenha sido em vão. É provável que o sacrifício de Alan tenha servido para mostrar que as fronteiras não podem ter mais tanta rigidez, a ponto de afastarem das pessoas a compaixão. Viver sem compaixão serve para que? Pergunta que deveria ser respondida também por aqueles que reagem com ódio e virulência contra a presença de haitianos em solo brasileiro, uma estupidez bem casada com a mais torpe das ignomínias.      

(Foto Nilüfer Demir)

31/08/2015

Uma história nada exemplar

        A mídia quase ignorou a concentração em frente ao Instituto Lula, marcada para o mesmo dia – 16/08 – dos protestos nacionais, estes convocados, mais uma vez, pelos movimentos Brasil Livre, Vem pra Rua e Revoltados Online e que reuniram multidões em toda parte, do Oiapoque ao Chuí. A concentração na porta do Instituto, é claro, foi convocada pelo PT e era em desagravo à entidade que teria sofrido alguns ataques dos inimigos do partido, cujo número tem aumentado assustadoramente. Por outro lado, foram, por assim dizer, bem fraquinhas as manifestações convocadas pelo PT para o dia 20/08 em apoio a Dilma, a favor do governo, contra Eduardo Cunha e a favor da Democracia. A piada que corre é que havia nas concentrações petistas, realizadas em 32 cidades, ao todo 120 mil pessoas, segundo os organizadores; 1.200 pessoas, segundo a Polícia Militar e apenas 120 pessoas, segundo o Datafolha. Quem o viu e quem o vê!!!
        Ironia à parte, não deve ser fácil para as lideranças do PT amargar esse quase ostracismo a que o partido começa a ser relegado, inclusive no Nordeste, transformado recentemente em seu reduto eleitoral graças aos programas sociais do tipo Bolsa Família; ruas e praças de cidades como Salvador, Recife, Fortaleza foram incendiadas pelos gritos de Fora Lula! Fora Dilma! e Viva o juiz Sérgio Moro! É a vingança do índio! Ninguém vai conseguir enganar a todos por todo o tempo! Escassearam muito os jabaculês e pixulecos que já levaram multidões para ruas e praças.
        O emagrecimento do PT não surpreende nenhum pouco a quem, como eu, acompanhou a história do partido desde o seu surgimento, alvissareiro, diga-se de passagem, dentro do movimento sindical do ABC Paulista; hoje de volta à cadeia por envolvimento também na operação Lava Jato, Zé Dirceu mandava e desmandava no  PT em parceria com o poderoso chefão, Luiz Ignácio Lula da Silva. Nunca ninguém na República havia usado a tese maquiavélica – os fins justificam os meios – com o mesmo ardor de Zé Dirceu; encavalado no poder já no primeiro mandato de Lula (2003), como chefe da Casa Civil da presidência da República, ele botava as manguinhas de fora – e que manguinhas! Quando queria expelir alguém do governo, inventava dossiês falsos e abomináveis contra seus detratores. Agia confiante, pois atrás dele viria o PT promovendo benesses para o povo. Assim, seus pecados seriam perdoados.
        Havia um Roberto Jeferson em seu caminho. Ele teve de ser apeado do poder de modo quase humilhante. Digo quase porque sua cara de pau impedia que víssemos o quanto foi humilhado. Ele continuou em marcha – marcha do mal – e foi em frente; condenado pelo Mensalão, do qual foi o mentor, conseguia escapar das grades, dando o drible da vaca nas leis e na justiça; sua segunda prisão veio no bojo da Operação Lava Jato. Enquanto descansava, tirava boas casquinhas da Petrobras.
        Aplaudido de pé nas convenções do partido mesmo proscrito do poder, Zé Dirceu manobrava, manobrava e manobrava; poucas pessoas encarnaram o espírito desse declínio petista tão bem quanto ele; apareceu como intermediário da compra, pelo “empresário” Nelson Tanure, da revista Isto É; o negócio não saiu, mas Zé Dirceu, por alguma razão que a própria razão desconhece, começou a mandar na revista mais que seu dono, Domingos Alzugaray. Eu estava nessa época assessorando, a pedido de amigos, o vice-governador de Santa Catarina, Leonel Pavan, do PSDB.
        Zé Dirceu havia escolhido Leonel Pavan, que na época ocupava um cargo importante na Executiva Nacional tucana, como o inimigo número um do PT, que naquele ano (2010) elegeu Dilma para o seu primeiro mandato; Pavan havia sido prefeito do Balneário Camboriú por três vezes e modernizou e saneou a cidade; construiu com isto a base eleitoral que o levaria ao Senado e posteriormente a vice-governador na chapa vitoriosa de Luiz Henrique da Silveira (PMDB); havia um acordo pelo qual PMDB, PFL (Dem) e PSDB iriam apoiá-lo para governador nas eleições de 2010.
        Estava tudo combinado: Luiz Henrique renunciaria no começo de janeiro, o vice Pavan assumiria como governador e no tempo certo seria lançado candidato da coligação tripartite ao governo estadual; ele se esqueceu que o combinado com políticos é geralmente mais falso que uma nota de 12 dólares; Pavan foi acusado de haver aceitado 100 mil reais de uma distribuidora  de petróleo do Rio de Janeiro para impedir que sua licença catarinense fosse cassada pelo órgão fazendário, por inadimplência tributária.
        A licença foi cassada sem nenhuma influência de Pavan e, pela primeira vez na República, se viu uma empresa pagar por um benefício  que  não recebeu. Pavan levou bordoada de tudo quanto é lado; no fim de 2009 eu fui para Santa Catarina para ajudar a salvar o pobre Pavan das labaredas do inferno. Quando o fogo estava quase extinto, eis que entra em cena o grande ídolo do PT, Zé Dirceu. A revista que ele controlava publica duas páginas de pura “bandalheira” que Pavan havia “cometido” em sua passagem pela Prefeitura do Balneário Camboriú. Foi acusado até de falsificar dólares. Era tudo mentira deslavada, mas que importância isso tem, não é mesmo?
        O incêndio contra Pavan recomeçou então com intensidade maior do que havia iniciado. Luiz Henrique não renunciou em janeiro; foi renunciar meses depois, quando Leonel Pavan já estava quase transformado em cinzas. Assumiu o governo só após haver prometido, em discurso na convenção de seu partido, o PSDB, renunciar a suas pretensões de ser candidato ao cargo que já ocupava.
        Resumo da história: o partido do qual se esperava um jeito mais elegante e honesto de fazer política mostrava suas garras e sua disposição de também chafurdar na lama da imoralidade e da indecência. O mais triste é que ele já havia nascido assim, com esse defeito genético, e nós é que custamos a perceber.

24/08/2015

Tocadores do Lucy (III)

As meninas da T.O. (sigla de Terapia Ocupacional) compensam com carinho e afeto as chicotadas que a vida deu (e às vezes continua a dar) nos cadeirantes internados no Lucy Montoro; vivemos, nós, os cadeirantes, entre a realidade e a depressão; as meninas da T.O. conseguem nos por novamente na realidade e com ânimo para enfrentar o árduo – e muitas vezes dolorido – caminho da reabilitação.
        Na segunda internação, minha T.O. foi a inesquecível Amanda. Devo a ela a quase total recuperação do meu braço direito, paralisado pelo AVC que me atingiu em fins de julho de 2013 durante a cirurgia que fui obrigado a fazer no hospital da UNICAMP para desobstrução das coronárias; não foi apenas a reabilitação do braço; com seu método persuasivo, tenaz, Amanda ampliou bastante também minha independência em relação ao cuidador, seja me passando métodos práticos e eficazes para me vestir, para me alimentar, para tocar a cadeira de rodas, etc.
        Nesta terceira internação, fui contemplado por duas T.O.s do mesmo calibre de Amanda – Kamyla e Tharsila. Kamyla assumiu e três ou quatro dias depois adoeceu (conjuntivite) e sua missão foi repassada a Tharsila. Levarei das duas também ótimas  lembranças.
        Kamyla passou pouco mais de uma semana em casa e retornou ao trabalho em meus últimos dias de internação; teve tempo, contudo, de concluir seu brilhante trabalho. Diria que os dias que passei em companhia de Tharsila foram da mesma forma inesquecíveis – ela tem um jeito doce e suave de se relacionar com seus pacientes. Tem um sorriso encantador.
        Na primeira semana, Tharsila concluiu a avaliação que Kamyla iniciou mas não teve tempo de terminar:
        - Agora, seu Dirceu, o senhor vai-me dizer, numa escala de um a dez, pela importância, as coisas que fazia e hoje não consegue fazer mais.
        Eu mencionei várias coisas, entre as quais a leitura de livros mais volumosos, pois minha mão direita não tem força para sustentá-los pelo tempo necessário; outra dificuldade mencionada foi a de me vestir com a roupa da parte inferior do corpo, calça, meias; Tharsila insistiu por uns dias com a melhora do desempenho do braço direito e Kamyla retornou com disposição redobrada; passou exercícios para melhorar o uso da mão direita, que andava um tanto esquecida e me levava para o quarto, com ajuda da cuidadora, para treinamentos persistentes de colocação de calças e meias; os ganhos de independência foram, mais uma vez, enormes.

        No último dia da internação, Kamyla  entregou-me  um presente que fechou com chave de ouro o tratamento: um suporte de papelão para apoiar os livros mais volumosos como incentivo a que eu retomasse a leitura com a mesma intensidade de antes; ela construiu o invento em casa e suas colegas na  T.O. ficaram encantadas com ele, com certeza não mais que o encantamento de quem o ganhou. Trouxe-o para casa e ainda não o usei. Serve, por enquanto, para eu manter acesa a lembrança de Kamyla com seus olhos grandões e maravilhosos, seu rosto afilado – rosto de princesa.

(Seção de Terapia Ocupacional)

19/08/2015

Tocadores do Lucy Montoro (II)

        Logo na minha primeira internação no Instituto de Reabilitação Lucy Montoro, há quase dois anos, aprendi que não devemos confundir fisioterapeutas com terapeutas ocupacionais, embora sejam, ambos, profissionais especializados  em reabilitação. No meu caso, os fisioterapeutas trabalham mais as pernas e os terapeutas ocupacionais, mãos e braços.
        O primeiro andar do subsolo – no elevador, o famoso “menos um” – é ocupado por ambas as especialidades em salas separadas. No Lucy, não é nada incomum pacientes chegarem ali em cadeira de rodas e saírem sem ela, muitas vezes dando passos lentos mas já dispensando ajuda de equipamentos de apoio – andadores, bengalas ou muletas.
        O paciente precisa estar pronto (músculos que já superaram a inércia da paralisia e readquiriram força necessária para a marcha) para começar a andar. Eu mesmo, que já tenho dois anos de cadeira de rodas, não estou pronto. Ao passar por avaliação pelos fisioterapeutas, identificaram fraqueza dos músculos da bacia de modo que ainda tenho mais três meses de exercícios intensivos para retornar para uma quarta internação.
        Fisioterapia, eu escrevi em crônica neste blog, é uma técnica muito dolorida com objetivo de levar uma pessoa a ficar o mais parecida possível com aquilo que ela já foi. Não há problema, suportarei tudo estoicamente. A dor passou a fazer parte da minha vida nesta nova fase, de todo inesperada.
        Fiquei pouco tempo no Lucy; desta vez, três semanas. Ainda assim eu e a mulher, Susana, minha cuidadora, aprendemos muito. Ali, as lições de vida estão no ar que respiramos.
        Minhas duas fisioterapeutas – Tatiana e Daiana – são exemplares; Logo pela manhã, depois de tomar café no quarto, eu já sabia que descendo pelo elevador seis andares teria um encontro com a baixinha de olhos azuis e sorriso encantador – Tatiana, casada, mãe de um filhinho de três anos, Pedro, muito lindo (ela mostrou-me a foto pelo celular). Fiz-lhe certa vez uma pergunta específica sobre o estágio da minha recuperação e a resposta foi um “banho” de conhecimento da anatomia humana, coisa de profissional  competente que nos deixou – eu e Susana – maravilhados. No intervalo da terapia, brinquei:
        - Tatiana, você chama seu filho de Pedrinho?
        E ela de maneira enérgica:
        - Não! Chamo de Pedro, apenas Pedro.
        Eu insisti:
        - Bom, não tem problema. É porque eu gostaria de ser adotado por você e acho que a incentivaria a chamar-me de Pedrão. Então você teria o Pedrinho e o Pedrão! O que acha?
        Ela riu e a resposta foi desalentadora:
        - Sem condições, eu quase não tenho tempo de cuidar de um, imagine de dois!
        Ela me tratou com objetividade e energia, sem nunca perder a ternura. Soube por suas colegas que ela é muito rigorosa. Eu, de brincadeira, vivia lhe pedindo:
        - Fala pro seu marido me ligar. Quero que ele me dê umas dicas de como lidar com você. Ouvi dizer que você é muito brava, uma verdadeira caninana!
        Ela ria e balançava a cabeça como a querer sugerir que eu não deveria acreditar nessas aleivosias.
        Já Daiana, que me atendia à tarde, é pouco mais descontraída. Sua marca é ouvir seus pacientes com desdobrada atenção. Também fala com propriedade da anatomia humana e demonstra conhecimento profundo de tudo aquilo que faz. Seus exercícios me fizeram descobrir que a dor do alongamento das pernas passa com a persistência.
        Em frente ao salão da fisioterapia fica a famosa sala 15, por onde todos devem passar pelo “condicionamento físico’’. Ali, como costumam dizer os pacientes do Lucy, “o bicho pega”. É o setor mais rigoroso da fisioterapia: pedalar na bicicleta ergométrica por 20 minutos significa pedalar por 20 minutos, não há descanso. Isto tudo seria insuportável para mim, que sempre odiei  exercícios, não fosse o bom humor de Tom, um rapaz simpático, que comanda a atividade de muitos pacientes, inclusive as minhas, na maioria das vezes.
        - 20 minutos sem descanso, vai nessa seu Dirceu, que faz bem- ele diz cheio de sorrisos.
        Seu auxiliar, Jean, rivaliza com ele em simpatia e afeto. A físio tem bicicletas de acentos almofadados e confortáveis; as bicicletas do condicionamento têm o acento duro, bem desconfortável. Aproveito um momento que Tom está próximo de Jean e largo a piada: as bicicletas da físio foram feitas por Deus e estas daqui pelo demônio. Ambos riem sorrisos que exalam simpatia.

         Tom e Jean são negros, demonstração viva do ecletismo racial do Lucy.



(Rede Lucy Montoro é pioneira em uso de robôs na reabilitação) 

14/08/2015

Tocadores do Lucy Montoro (I)

        Nem me lembro mais do nome da enfermeira que fez o primeiro atendimento no meu quarto; sei que era baixinha e simpática. Foi na minha primeira internação, há 18 meses. Ao me transferir da cadeira para a cama, escapei e quase fui ao chão; em pânico, deu um jeito de enfiar-se embaixo de mim para amortecer ou evitar a queda. “Já pensou se o senhor cai? Deus me livre!” – comentou, ainda desconcertada.
        Eu, para aliviar a situação, respondi:

        - Não se preocupe, eu gostei, foi a queda mais macia que já sofri na vida ! Vou até sugerir ao Lucy instituir uma nova terapia com o título de “queda sobre a enfermeira”.

        Foi difícil, mas consegui arrancar dela um primeiro sorriso, o que a tornou ainda mais cativante.
        Nos andares de internação, não são muito raras as quedas de pacientes; ao serem internados, todos ganham uma pulseirinha de um tipo de cor de acordo com o risco de queda (nesta terceira internação, ainda não consegui livrar-me da pulseira vermelha, que indica “alto risco”). Ficou para a próxima ou quem sabe para o finalzinho desta, se tudo correr bem.  Outra medida, diria que disciplinar, é a proibição aos portadores da pulseirinha vermelha  e cuidadores de fazerem, nos primeiros dias da internação, qualquer tipo de transferência sem a presença de um enfermeiro ou enfermeira como observador. A liberação só ocorre após dois ou três dias de observação e após o aval do fisiatra do andar.
        Rosa, Sebastiana, Antônia, Raquel, Ana, Elisângela, Fernanda, Tiago, Gilmar, Lilian, Tatiana, entre tantos outros – o Lucy tem um quadro de enfermeiros, enfermeiras, oficiais administrativos, exemplar. Não importa o horário do dia, da noite ou da madrugada – todos parecem trabalhar com alegria e elevado senso profissional.
        Vejam o caso de Rosa, enfermeira; suas lembranças me perseguem no antes e após o Lucy Montoro. Em casa, ouço sua voz – forte e ao mesmo tempo suave- sempre que vou tomar algum remédio: “Toma muita água, seu Dirceu!“ Graças a ela creio que dupliquei a ingestão de água nos últimos meses e meu organismo parece agradecido. Eu a conheci na segunda internação e confesso que estava ansioso por revê-la nesta. Por sorte, ela atende o sexto andar onde me encontro.
        Outra voz inconfundível é a de Sebastiana, que me acorda às 5h, 30 da manhã com o seu delicioso sotaque mineiro e apreciável bom-humor. “Sei que aqui não pode entrar criança – ela diz – mas eu não vou deixar minha filhinha com ninguém; onde eu vou, ela vem junto”. Ainda sonolento, custei a entender. Ela se referia à menina que está em sua barriga. Sebastiana entrou em julho de 2015 no oitavo mês de gravidez. Daqui mais trinta e poucos dias virá ao mundo sua filhinha, que irá se chamar Yasmin.
        A cada internação, a enfermagem parece melhor, mais comunicativa, mais preparada; nunca fui de acordar muito cedo, mas Elisângela me tira elogios rasgados à elegância e simpatia; sempre de cabelo-loiro bem alinhado, sempre maquiada com sobriedade, até o uniforme lhe cai muito bem. “Como você consegue surgir no meu quarto assim tão elegante às cinco horas da manhã?”- sua resposta é apenas um sorriso que irradia simpatia e beleza.
        Já a conversa com Antônia é sempre uma imersão na cultura do nordeste. Ela é cearense e gosta de falar dos momentos vividos em sua terra-natal. Cita expressões regionais e sabe dizer dos usos e costumes do Ceará. E fala num sotaque suave e gostoso. Lilian, oficial administrativo, fica sempre de cabeça baixa atrás do balcão de enfermagem, espécie de recepção dos andares da internação, ligada na tela do computador. Uma vez surpreendi-a contando a uma amiga, ainda indignada, a história do idoso que a ofendeu no ônibus que a traz todos os dias ao trabalho. Eu a via sempre que passava em frente ao balcão indo ou vindo das sessões de terapia. Brincava com ela – “E o idoso mexeu com você hoje?”. Ela ri um riso gostoso. Foi ela que me surpreendeu contando a uma enfermeira que iria escrever uma crônica em homenagem ao corpo de enfermagem do Lucy.
        - Não se esqueça de mim e do meu idoso nessa sua crônica, hem seu Dirceu? – ela me exortou com simpatia. 
        Lilian trabalha ao lado de Fernanda, outra enfermeira nota dez. Já havia pedido a vários enfermeiros para Ligar para a Net – operadora do sinal de TV do setor de internação – para solicitar a retirada de um selo promocional que atrapalhava muito a visão das imagens; nenhum deles obteve resultado e o selo continuava lá. Foi quando repeti o pedido a Fernanda, que se comprometeu a voltar a falar com a Net. Foi o tempo de retornar ao quarto e ligar a TV: o selo já havia sido retirado.
        Os exemplos de eficácia de enfermeiros, enfermeiras, oficiais administrativos se repetem “ad infinitum”. Como no caso de Gilmar, enfermeiro. Um dia fomos convocados, pacientes e cuidadores, para participar de uma palestra no primeiro andar. Para mim o tema era bem pouco atrativo: doenças sexualmente transmissíveis, AIDS, Herpes, Sífilis, etc. Ao longo da minha carreira de jornalista, colecionei tantas informações sobre o assunto que achava que ninguém poderia me passar alguma novidade. Surpreendi-me. Um dos dois palestrantes era Gilmar, enfermeiro, respondia perguntas com propriedade e vasto conhecimento científico. Foi talvez a palestra mais interessante sobre o assunto que presenciei na vida.


09/08/2015

Lucy Montoro, oásis no deserto da Saúde brasileira

        Como informei em artigo anterior (A Solidão do Cadeirante), estou internado no Instituto Lucy Montoro pela terceira vez. O Lucy - uma das ótimas heranças do PSDB – é um dos centros  mais especializados em reabilitação da América Latina, com diversas unidades espalhadas pelo estado de São Paulo. A unidade para internação, onde estou, fica no Morumbi, a poucos quilômetros de Paraisópolis.
        Almoço todos os dias com o garoto Mateus. Ele tem 18 anos e aos 17 foi vítima, durante uma balada, de uma bala perdida que atingiu-lhe as costas e o deixou paraplégico. Sua cuidadora é a mãe, Maria Betânia, que se reveza no trabalho com a avó, Deída. A família reside na favela de Paraisópolis e é um bom exemplo da face democrática do Lucy, que tem acolhido pacientes de várias faixas de renda, sem distinção e sem necessidade de “cunha” política. O foco é na necessidade de saúde e nas possibilidades de recuperação bem avaliadas por médicos fisiatras (especialistas das doenças que atacam os pacientes com lesões).
        O Lucy é mantido pelo SUS – Sistema Único de Saúde. A terapia de reabilitação intensiva é cara, mas o instituto se parece com um oásis em meio ao caos da saúde no Brasil, onde faltam recursos e sobram necessitados; penso que a inépcia do SUS no Brasil é uma fotografia do fracasso da proposta do Partido dos Trabalhadores - PT, desfigurada pela corrupção sem precedentes na história deste país. Fossem aplicados em saúde, por exemplo, os 19 bilhões de dólares roubados da Petrobras, é bem provável que Lula teria cumprido sua promessa de transformar o SUS em exemplo de qualidade para o mundo.
        O Lucy é muitas vezes a última esperança de recuperação de pessoas com lesões medulares de todo o tipo e toda gravidade; sua clientela não para de crescer num país injusto, assolado pela violência, pelos acidentes de trânsito, pelos acidentes na construção civil, pela má qualidade da saúde pública, que mandou para o Lucy, como exemplo, o ainda jovem Rafael, com grave lesão cerebral. Filho do pequeno empresário Nilton, seu cuidador, Rafael ainda consegue preservar o corpo de atleta, com músculos bem torneados  e avantajados. Deve ter quase um metro e oitenta de altura, 38 anos de idade. 
        Era lutador de tae-kwon-do e apresentou uma isquemia cardíaca, que ele escondeu da esposa e do pai para não ser obrigado a parar de lutar; durante uma luta em São José dos Campos, no Vale do Paraíba (SP), teve uma parada cardíaca; faltou oxigênio na ambulância da Prefeitura que o socorreu; chegou ao hospital em coma profundo e saiu de volta para casa com lesão cerebral, que ainda o mantém semi-paralisado e com grave retardo mental. 
        É a segunda internação de Rafael no Lucy. Sua evolução é notável, embora seu cuidador não o perceba tanto quanto eu. Ele já anda com certa dificuldade, entende quase todas as coisas que lhe falam, diz inúmeras palavras com clareza que melhora a cada dia da internação; é sua segunda internação no Lucy. Estive com ele e o pai na primeira internação, há cerca de 18 meses. Eu fiz uma segunda enquanto ele teve de realizar uma cirurgia  para implante de uma válvula cardíaca.
        O prédio para internações do Lucy fica na rua Jundiatuba, cercado por arranha-céus residenciais. Tem 10 andares, dos quais quatro são de apartamentos para internação; pacientes ficam hospedados, cada qual com seu cuidador, durante três, quatro, seis ou oito semanas, dependendo de cada caso, da evolução do tratamento, dos objetivos fixados por fisiatras, terapeutas, psicólogos, fonoaudiólogos. A assistência ali é completa, tocada por profissionais instalados no topo da pirâmide profissional. Parecem não existir altos e baixos no time de profissionais que faz o Instituto funcionar – todos operam  num altíssimo nível de qualidade.
        Falhas? Impossível não havê-las. Noto alguma pouca deficiência na comunicação médico-paciente, como no meu caso, na segunda internação, quando fui levado para aplicação de fenol na perna direita, sem que me explicassem para que e o que pretendiam com o procedimento. Deu problema: apresentei o que os fisiatras chamam de “choque” no pé e o problema (dor no pé, que se espalha lentamente até atingir vários pontos do corpo) persistiu por quase um ano. Até hoje, 12 meses  após a aplicação, ainda sinto resíduos do problema. Eu deveria ter sido comunicado da finalidade do tratamento e prevenido dos riscos.
        Mas o Instituto reage, a comunicação, hoje, é muito mais esmerada, com a recente implantação de um fisiatra por andar dos quatro andares da internação. O médico que me atendeu no sexto andar, nesta terceira internação, chama-se Artur – é um nissei simpático, dono de grande empatia para com os pacientes. Deve saber que a empatia é a pedra de toque de toda boa comunicação.


(Imagem ilustrativa de um oásis circundado por montanhas de areia)

06/08/2015

O raquitismo da TV aberta (II)

        Quando disse, no artigo anterior, que tem faltado “vontade competitiva” às emissoras que concorrem com a Globo é por observar que nenhuma delas tem sabido aproveitar, com mais apetite, as oportunidades de melhorar a audiência nos raros momentos em que a  líder fraqueja; todas elas, da Record ao SBT, passando por Bandeirantes, aparentam estar  conformadas com a rabeira.
        Na noite que a líder exibe Palmeiras e Asa de Arapiraca, nenhuma das concorrentes decidiu colocar no horário do jogo, horário nobre, alguma atração para fisgar aquele telespectador que zapeou à procura de algo melhor para ver. E com certeza, devem ter sido milhões deles.
        Por favor, não venham dizer que faltam recursos para pensar em algo melhor; nem sempre o problema é falta de recursos; geralmente, tem sido falta de imaginação, de vontade competitiva. Vejam a Bandeirantes: já não está mais atenta ao horário da virada da curva de audiência e retarda a mais não poder a entrada no ar de seu ótimo CQC; mesma coisa faz o SBT com o seu “A Praça é Nossa”, às quintas-feiras.
        O tamanho do break publicitário – muito longo – também tem roubado audiência tanto da Bandeirantes quanto do SBT; não consigo entender porque esses canais não adotam o estilo concorrencial da Globo, que em síntese recomenda mais break e mais curtos. E olha que a Globo tem muito mais contratos publicitários que as demais emissoras.
        Trabalhei, como diretor de jornalismo, numa redezinha regional – quatro emissoras, uma na capital, Curitiba, e três no interior – e descobri, em quase dois anos de trabalho, que é possível incomodar a “líder” com iniciativa simples, basta ter vontade de competir. Minha maior façanha foi a cobertura de um assalto ocorrido em Londrina, com ingredientes sensacionais.
        Nossas emissoras repetiam o sinal da Manchete, com Sede no Rio. Eram pouco mais de 11 horas da manhã e recebo um telefonema do correspondente em Londrina alertando-me para a eclosão de um assalto a uma agência bancária: “Um bando de homens mascarados invadiu a agência e mantém como reféns todas as pessoas que estavam lá dentro, com certeza mais de 200, entre funcionários e clientes”.
        Na mesma hora dei sinal para uma funcionária e pedi para ela ligar para a Embratel e fazer a reserva do único canal de transmissão Londrina-Curitiba por cerca de 10 horas. A reserva foi feita e a estratégia competitiva, assim, foi montada. O canal Londrina-Curitiba era único; a emissora que o reservasse tinha direito exclusivo de uso pelo período da reserva; quebrei a “líder” pela espinha. Em 30 minutos colocamos no ar, em rede nacional, o primeiro flash do assalto. A “líder” conseguiu por no ar seu primeiro flash às 4 horas da tarde; teve de levar suas fitas com cenas do assalto de avião fretado para Curitiba.
        Um amigo estava nesse dia na sala de Armando Nogueira (diretor de jornalismo da “líder” na época) no Rio de Janeiro quando nosso primeiro flash do assalto foi exibido; Armando levou um susto, quase cai da cadeira; fez cobranças cruéis a toda equipe do Paraná, que havia sido imobilizada por um gesto de um jornalista de texto com apenas alguns poucos meses de televisão.
        Os jornalistas que trabalhavam comigo na Manchete eram amigos dos jornalistas da Globo; encontravam-se à noite nos bares de Curitiba e vinham me dizer no dia seguinte que ninguém ali, na “líder”, costumava assistir ao nosso pequeno jornal; reagiam na base do não vi e não gostei. Isto foi até o episódio do assalto. A partir daí todos receberam ordens expressas das chefias que tornavam obrigatório verem os nossos jornais.


31/07/2015

O raquitismo da TV aberta (I)

Quarta-feira à noite (15/07), a TV Globo me oferece Asa de Arapiraca versus Palmeiras; como não sou palmeirense, comecei a rodar os canais para ver se descobria algo mais interessante para ver; descobri  várias coisas, a começar pela certeza de que a Globo não gosta de futebol; ela gosta muito de dinheiro, mas de futebol... Não fosse assim, como explicar que na noite de um jogo importante pela Libertadores (Internacional x Santa Fé) ela tenha optado por transmitir Arapiraca e Palmeiras ?
A segunda descoberta é que a TV aberta brasileira parece ter desistido de competir e resolvido deixar o caminho livre para a emissora-líder. Começa que a Record, onde durante algum tempo se enxergou algum punch competitivo, ganhou o direito de transmissão dos jogos de Toronto, mas os esconde, parecendo envergonhada ou arrependida de ter ganhado. Descobri que a Record estava transmitindo os jogos por mero acaso, advertido que fui pela Globo de que o direito de transmissão não lhe pertencia.
Confesso que não consigo compreender qual a  estratégia competitiva da Record, se é que ela mantém alguma que não seja aproveitar as sobras da Globo, como foi a contratação de Xuxa Meneguel. Triste momento da TV brasileira!
A líder em audiência é também líder em criatividade; volta e meia desova uma novidade, resultado de suas áreas de criação, de invenção;  é raro que ela lance mão de alguma idéia nascida lá fora, no exterior. Convenhamos, a reforma do Zorra deixou o programa bem legal!
As demais emissoras, ao contrário, só conseguem dar esmolas com a mão alheia. Enquanto a líder transmite Arapiraca, o SBT insiste no seu programa de humor para quem ri por qualquer coisa (Chaves, de origem mexicana) ou na novela Carrossel, para crianças descompensadas. E a Bandeirantes, hem?  O que dizer de uma emissora que teve de vender seu horário nobre para uma das igrejas evangélicas? Seu programa de maior sucesso (o humorístico CQC) é de origem argentina; o outro sucesso (Master Chef) nasceu no Reino Unido.
Digo tudo isso com tristeza, pois gostaria de ver a televisão brasileira mais aguerrida; seria muito bom para o Brasil, se assim fosse. Teríamos, em primeiro lugar, um jornalismo com mais qualidade e diversidade. Depois, abriríamos mais espaço para artistas e criadores de modo geral. Teríamos menos proselitismo religioso e menos noticiário policial.
Já trabalhei em televisão e sei o quanto é difícil competir fora da grande audiência; a emissora líder abocanha de 70 a 80 por cento do bolo publicitário e o resto – em alguns horários sobram migalhas – é dividido entre as pequenas emissoras, quase alternativas. Produzir uma programação de qualidade custa caríssimo.
O que eu noto, entretanto, é que as emissoras, digamos, alternativas, não chegam onde podem chegar. Falta inteligência, perspicácia, e em algumas, como no SBT, parece faltar vontade. Não sei o que será do SBT quando seu dono passar desta para uma melhor. De suas filhas, apenas uma foi iniciada no ofício do pai; é simpática, comunicativa, mas não parece ter herdado a esperteza empresarial do pai. Será presa fácil dos gaviões que certamente começarão a sobrevoar a emissora, assim que o dono do Baú bater asas.

Continuaremos a comentar o assunto – O Raquitismo da TV Aberta – num próximo texto.

27/07/2015

Mais um jornal se foi

        Um amigo deixou um exemplar do Brasil Econômico sobre minha mesa há cerca de dois meses e apenas ontem de manhã, depois de informado que o jornal foi fechado, dei uma folheada nele para tentar responder a pergunta que me faço com certa frequência: porque os jornais de economia não conseguem imitar o pioneiro Gazeta Mercantil, que parou de circular  há cerca de quatro  anos e continua até hoje inigualável ? O Brasil Econômico, editado pelo grupo português Engesa, durou seis anos, mas quem acompanhou sua trajetória sabia dizer que seria um jornal de “voo curto”, embora tenha introduzido no mercado algumas inovações de formato e paginação. Era um tabloide colorido e, digamos, bem bonitinho.
        Formato e cor – ficou comprovado – não são capazes de penetrar na alma dos leitores tanto quanto penetrou a Gazeta Mercantil, cujo desaparecimento deixou muita saudade até hoje sentida. Mesmo o Valor Econômico, resultado de uma estratégia pensada por Folha de S. Paulo e O Globo com objetivo de ocupar o espaço que estava sendo deixado pela Gazeta, já metida em profunda crise, não conseguiu até agora emular o jornal que inspirou seu lançamento.
        O Brasil Econômico se vai agora e, a não ser os profissionais que nele trabalhavam, não haverá ninguém a lamentar. Foi um jornal que não pegou.
        A Gazeta Mercantil foi, enquanto durou, um jornal necessário às corporações empresariais de todo o país. Era utilizado para monitoramento de todos os mercados. Publicava diária e infalivelmente páginas e mais páginas com os indicadores financeiros. Era insubstituível para consultas. O noticiário servia para permitir análises vigorosas do desempenho de setores, destacando negociações, fusões, incorporações, inovações importantes, tudo calçado por boa visão dos mercados regionais.
        Fui diretor regional da Gazeta durante seis anos. Trabalhava como “Publisher”, de modo que estive em contato direto com leitores e assinantes. O jornal era venerado por seu público. A crise, que eclodiu com furor no comecinho do novo século, causou consternação. Há certos produtos de sucesso que são mesmo inimitáveis.
        Certa vez, marquei uma conversa com um dos diretores do Brasil Econômico com intenção de vender a ideia de por o jornal no mercado de tempo real. Tinha uma longa e sólida experiência na difusão de informações pelo meio eletrônico e achava que a sustentação de jornais de economia e negócios dependeria da receita que poderia vir do “real time”. Saí da conversa indignado. O homem “entendia” mais de tempo real que eu.
        É a arrogância – uma praga – que mata a inovação e o desenvolvimento de muitas empresas. Uma pena!