05/10/2018

Ricardo Kotscho, o jeito Petralha de ser


por Dirceu Pio

        Ele já foi brilhante! Sua reportagem sobre o Caso Manoel Fiel Filho, operário torturado até a morte nos porões do regime militar, permanece até hoje como símbolo de jornalismo bem executado – texto enxuto, narrativa sensível e tocante.

        Nessa época – anos 1970 – convivemos por algum tempo na mesma redação do jornal O Estado de São Paulo, ele repórter e eu numa função de controler, ao lado do amigo comum, Raul Bastos.

        Foi mesmo por pouco tempo. Na metade de 1976, designado por Raul Bastos para chefiar a Sucursal de Curitiba, mudei de estado e de cidade, enquanto ele, Ricardo Kotscho, se transferia para a redação da Folha de São Paulo.

        Perdemos o contato e eu nunca tive a oportunidade de lhe dizer que admirava muito o seu trabalho.

        Pela Folha de São Paulo, mergulhou fundo na greve dos metalúrgicos do ABC. Foi mandado tantas vezes a São Bernardo do Campo que se apaixonou por Luiz Inácio Lula da Silva, o jovem líder metalúrgico que despontava com furor na região que o padre Lebret havia descrito como um gigantesco acampamento de operários formado em torno de grandes indústrias.

        Quando conheci Ricardo Kotscho em São Paulo, eu também já havia passado pelo ABC Paulista como repórter do Diário do Grande ABC e depois chefe da Sucursal do ABC dos jornais O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, onde convivi, entre tantos outros talentos, com esse que é considerado hoje o melhor repórter fotográfico do Brasil, Pedro Martinelli.


        Peguei nessa época o movimento que antecedeu as greves dos metalúrgicos que revelaram Luiz Inácio, feito de Operações Tartaruga, operários cruzando os braços em frente aos tornos e prensas, o máximo de ousadia que o movimento operário era capaz de opor ao regime militar.

        Saí do ABC mas deixei fontes por lá, pessoas que me mantiveram informado sobre tudo de mais importante que ocorria na região e já me alertavam para o “caráter gelatinoso” do líder em ascensão. Só votei em Luiz Inácio uma só vez para não contribuir com a eleição de Fernando Collor, atitude da qual me arrependi pouco tempo depois.

MERGULHO NA REPORTAGEM

        Eu passaria quase 20 anos em Curitiba, dedicando mais de 90 por cento do meu tempo à minha paixão no jornalismo, a reportagem de campo, de interesse geral, que me permitiu viajar por grande parte do Brasil e conhecer – e entrevistar – centenas de pessoas dos mais diferentes níveis sociais.

        Preciso mencionar aqui (vocês vão entender minhas razões mais à frente, neste texto) que vivi nestes mais de 40 anos de reportagem muitos momentos de glória.

        O primeiro deles ocorreu na Sucursal de Curitiba durante conversa que tive com um repórter da equipe (Caco de Paula). Contava a ele, despretensiosamente, as peripécias que tive de fazer para apurar uma reportagem sobre um incêndio ocorrido na periferia de Mauá, ainda nos meus tempos de ABC Paulista, e ele abriu a gaveta da mesa e tirou um livro para mostrar algo que me impactaria pelo resto da vida: a reportagem que eu mencionava a Caco de Paula fora transcrita pelo autor do livro, o professor de Comunicação da PUC de Campinas (SP), Mário Erbolato, como um “ótimo exemplo” de jornalismo interpretativo, a tendência que ele dissecava na obra. 

        A transcrição do meu texto foi antecedida por quatro páginas de elogios rasgados à reportagem e ao modo como apurei e estruturei a narrativa.


        Enquanto Ricardo Kotscho viajava com assiduidade a São Bernardo, eu viajava com frequência a Foz do Iguaçu para me transformar num dos poucos repórteres que acompanharam, do início ao fim, a construção da hoje segunda maior hidrelétrica do mundo, a Itaipu (pedra que canta, do tupi-guarani), feita em parceria com o Paraguai.

        Começa aí a grande diferença entre eu e Ricardo Kotscho: enquanto ele se deixou apaixonar perdidamente por sua fonte, o líder Luiz Inácio, nem em sonho fui apaixonado pelo general Costa Cavalcanti, o diretor-geral de Itaipu. Sempre mantive a necessária distância crítica a todas as minhas fontes.


DENUNCIEI TODAS AS MAZELAS

        Costa Cavalcanti e todos os demais diretores da Itaipu Binacional sempre me trataram com especial deferência e eu, ao longo da obra, denunciei todas as mazelas dos responsáveis pela construção, mazelas que foram desde a contratação irregular de “peões barrageiros” até o isolamento imposto ao município de Guaíra.

        Guaíra abrigava as Sete Quedas, uma grande maravilha da geografia brasileira sepultada pelas águas da represa de Itaipu.

        Eu falava ali atrás dos momentos de glória da minha vida de repórter: outro deles foi sem dúvida o momento em que a Câmara Municipal de Guaíra me concedeu o titulo de Cidadão Honorário em agradecimento ao que uma das minhas reportagens, publicada pelo Suplemento de Turismo do Jornal O Estado de S. Paulo, produziu de benefícios para o município.

        Com um texto minucioso que pela primeira vez escancarava a todo o país as belezas das quedas que iriam desaparecer, a reportagem criou um fluxo turístico à cidade que foi tão intenso que os empresários tiveram de providenciar, em regime de emergência, a ampliação de hotéis e restaurantes.

        O fluxo foi mesmo tão intenso que despertou o ainda incipiente movimento ambientalista brasileiro. Começaram a surgir protestos de toda ordem pelo país contra a destruição das quedas a ponto de preocupar a empresa binacional responsável pela implantação da usina.

DIMINUIR A POTÊNCIA

        Assessorados por especialistas, os manifestantes descobriram que era possível salvar 7 Quedas se a usina perdesse uma pequena parte de sua potência. Formado o lago, afogadas as Quedas, a primeira preocupação de Itaipu foi dinamitar a crista das quedas usando o argumento criminoso de que as pedras atrapalhavam a navegação pelo lugar.
       
        A Sucursal de Curitiba sob meu comando, tendo como repórter o hoje afamado historiador Laurentino Gomes, denunciou o passo a passo da dinamitação.

        Dali em diante, tive apenas alguns encontros esporádicos com Ricardo Kotscho. Um deles foi na cobertura do acidente de avião, na região de Ponta Grossa (PR), que matou  dois altos diretores do Bamerindus.

        Eu chegara à região onde o avião fora visto no ar pela última vez, com três ou quatro dias de antecedência. Já havia, portanto, me assenhoreado da logística da cobertura.

        Kotscho, não! Desembarcou no local com grande atraso e no meio do burburinho que a notícia da descoberta do avião acidentado provocou.


PERDIA A EMBOCADURA

        Ele nunca vai saber, mas a confirmação da notícia de que o aparelho foi encontrado fora arrancada a fórceps por mim e pelo amigo Mauro Bastos, enviado especial do Jornal do Brasil, depois da queda de um helicóptero-bolha por excesso de peso.

        Foi só demonstrarmos ao piloto que havíamos observado a irregularidade para que ele nos abrisse a informação que o comando das buscas tentava esconder por uma razão até compreensível: no avião acidentado, havia várias sacolas de dinheiro que eram levadas às fazendas do Bamerindus em Tomasina para pagamento de empregados e tentava-se evitar assim que a chegada de jornalistas pudesse atrapalhar o resgate do dinheiro.

        Eu socorri Ricardo Kotscho repassando-lhe as informações que ele precisou para redigir sua matéria naquele dia.

        Na manhã seguinte, fomos todos ao local do acidente. O avião, um pequeno Sêneca, havia caído de bico no alto de uma planície rochosa encoberta por uma floresta comercial de pinus.

        E foi ali, diante de um pequeno avião despedaçado, que eu percebi que Ricardo Kotscho, já enfiado de cabeça no PT, começava a perder a sua embocadura de repórter: entre tantos jornalistas, só eu e Mauro Bastos tivemos a curiosidade de descobrir as causas da queda do Sêneca.

        Depois de observar a rota que o aparelho deveria ter feito até cair, caminhamos em sentido contrário por meio quilômetro até começarmos a encontrar pedaços da asa direita do avião. Não cheguei a ler o texto que o Mauro escreveu para o Jornal do Brasil, mas ainda me lembro das primeiras frases do meu texto: “Foram três ponteiros de eucalipto, com menos de uma polegada de espessura, que roubaram uma das asas do avião do Bamerindus e o fizeram cair de bico cerca de 500 metros â frente sobre um maciço rochoso...”

CARREGADOR DA PASTINHA


        Outros dois encontros ocorreriam ainda em Curitiba e ele já estava transformado no assessor dileto do Lula, o homem que carregava a pasta do  ex-líder sindical que seria derrotado duas vezes antes de se eleger presidente.

        Entre uma candidatura e outra, já com a aura do assessor do líder que chegaria à presidência da República, tivemos mais um encontro, ele embarcando para Curitiba e eu chegando ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

        Numa  conversa rápida, ele me informou que iria assumir o cargo de diretor de redação das empresas de José Carlos Martinez (Um jornal diário e dois canais de televisão em Curitiba e Londrina);  e eu o aconselhei  a tomar muito cuidado com seu novo patrão.

        Percebi claramente que Lula roubava avidamente o que seu assessor tinha de melhor: além da competência refinada para o jornalismo, rapinava também os seus valores éticos.

        O deputado José Carlos Martinez, além de ser um dos primeiros políticos a embarcar de corpo, alma e bolso na candidatura de Fernando Collor à presidência, pertencia (ele morreu num acidente aéreo em outubro de 2003) à Família responsável pela “colonização” de uma imensa área no Oeste do Paraná, onde foram assassinados dezenas de centenas de colonos, conhecida como Grilo Santa Cruz.

        José Carlos Martinez foi derrotado fragorosamente ao governo do estado do Paraná. Durante a campanha em 2002, Requião convocou a imprensa com a promessa de que iria divulgar um dossiê sobre o Grilo Santa Cruz. De fato, a entrevista aconteceu, mas o “dossiê” era feito de cópias de todas as dezenas de reportagens que eu (90%) e a jornalista Tonica Chaves (10%) havíamos feito na região-alvo da imensa grilagem.

        Antes de nos encontrarmos, desgraçadamente, aqui no facebook, eu e Kotscho nos avistamos ainda duas vezes...Ele ainda estava eufórico com o “desempenho” do seu ídolo na Presidência da República, que dava início ao seu segundo mandato.


AMOR CEGO E INDESTRUTÍVEL

        Kotscho já havia se desligado do cargo de assessor de imprensa do governo, me fazendo acreditar que e se afastara pra não se envolver na roubalheira que já corria solta. Como fui ingênuo!

        Tive de assistir a uma palestra dele durante um seminário sobre comunicação em São Paulo para acompanhar  um amigo argentino, o jornalista e escritor, Ricardo Sarmiento, que também falou no  evento.

        Estávamos no anfiteatro de um hotel e depois das palestras descemos para o bar, eu, Sarmiento, Kotscho e vários outros jornalistas, para um bate papo e um chope.

        A atração da mesa, é claro, foi ele, Ricardo Kotscho, e suas histórias dos bastidores do Governo Lula, nem todas contadas no livro – Do Golpe ao Planalto – Uma vida de repórter – que ele lançava na época.
Pude entender, com todas as letras, as razões do cego e indestrutível fascínio que Ricardo Kotscho passou a sentir por Luiz Inácio Lula da Silva:

        - Quando Lula venceu o segundo turno (Ricardo Kotscho contando)  fui convidado para um jantar comemorativo no Palácio da Alvorada... Estávamos apenas em três, eu, Lula e a Maria Letícia... Contei para ele que a pergunta que mais me faziam após as palestras era se ele sabia ou não sabia do Mensalão... E ele me perguntou, curioso: “E o que você responde?” Eu digo que você não sabia mesmo de nada porque anda muito esquecido ultimamente! (muitos e muitos risos)

PERDEU MESMO A EMBOCADURA

        Em nosso último encontro, outra vez em São Paulo, ele mal conseguiu disfarçar a raiva que deveria começar a sentir de mim. Havia feito uma parceria com meu grande amigo Hélio Melo para lançamento da revista Brasileiros. Estava no Rio de Janeiro quando comprei numa banca um exemplar do primeiro número da revista.

        No hotel, li toda ela com desdobrada atenção. A notei todos os pontos falhos (já tinha alguma experiência com edição de revistas) e no outro dia enviei, com intuito de ajudar, mensagem ao Hélio fazendo uma crítica um tanto severa da primeira edição onde apareceu uma longa reportagem de Ricardo Kotscho.

        A reportagem de Kotscho trazia o perfil de um personagem muito interessante do litoral nordestino, uma ótima história simplesmente destruída pelo repórter que perdera todo o brilho. Lembro-me que eu perguntava ao Hélio na mensagem: “O que aconteceu com o Kotscho ? Desaprendeu tudo o que sabe? Se puder, diga pra ele que quando a gente tem um personagem de valor, não precisa encher o cara de elogios... Conta a história dele e deixe que o leitor descubra que ele é um grande brasileiro!”

        Faz, creio, mais de dois anos que eu o adicionei no facebook. Nunca deu em todo esse tempo qualquer sinal de vida. Bastou que a atual campanha esquentasse e eu, usufruindo dos meus direitos de cidadão, tornasse pública minha adesão à candidatura de Jair Bolsonaro, para que ele mostrasse as suas garras petralhas.

        Já me chamou de canalha, medíocre, e me atirou muitas outras ofensas. No último comentário que ele fez em minha página de facebook, escreveu: “Dirceu Pio, como jornalista medíocre que você sempre foi, poderia pelo menos acertar a grafia do meu nome... Sabia que você era um reacionário cretino, mas não desconfiava que você fosse tão canalha. O que aconteceu com você? Tá fazendo tudo isso, rebaixando-se, de graça? Não acredito...”

        Isto tudo, eu sei, são palavras atiradas ao vento e eu nem tenho mais idade pra me deixar ferir por essas flechas petralhas.



        Só um aspecto me preocupou: pouquíssimas pessoas dessa minha enorme base de amigos do facebook conhecem minha história profissional, de modo que neste longo texto que aqui encerro quis apenas dar alguns poucos exemplos para que todos meus leitores tenham subsídios para me comparar a quem me chama de medíocre. 

 Lula abraçado com o Ricardo Kotscho