24/11/2017

ZÉ DIRCEU E TANURE, UMA DUPLA DO BARULHO NA AGONIA DA GAZETA MERCANTIL

        É verdade que a empresa que ele recebeu já era um bagaço, mas não precisou nem de sete anos para transformá-la em pó...

        Foi o controlador Luiz Fernando Levy, falecido neste outubro de 2017, que produziu o bagaço e foi Nelson Tanure que transformou em pó toda a história, majestosa, de quase 90 anos, do jornal Gazeta Mercantil – o principal de economia, finanças e negócios da América Latina e um dos sete melhores do mundo, segundo a revista Fortune (EUA)...

        Mereciam um troféu cada um. O primeiro por “suprema incompetência administrativa” e o segundo pela “esperteza salafrária”, tudo o que se pode dizer, hoje, da passagem do empresário Nelson Tanure pela Gazeta Mercantil...

        A agonia da Gazeta Mercantil começou exatamente no dia 15 de setembro de 2001, com o ataque de Bin Laden às Torres Gêmeas de Nova Iorque... O mercado brasileiro de publicidade entrou em recessão e a Gazeta, inchada, sem nenhuma reserva de caixa, iria amargar pelo menos seis meses sem a entrada de anúncios pagos...

        A inanição do caixa iria provocar um desarranjo de tal monta na estrutura de porte nacional da empresa que em menos de três anos já lembrava um organismo abatido e abandonado ao sol do deserto...

        Pronto, estava criado o “aroma” que atrai empresários do tipo de Nelson Tanure, chamados de “abutres” pelo mercado – só se interessam por empresas falimentares e têm uma metodologia especial para ganhar dinheiro nessas situações...

MUITO E MUITO LUCRO

        Os números são imprecisos, pois a gestão Tanure teve índice zero de transparência, mas não seria nenhum exagero dizer que o abutre, ao abandonar a Gazeta em maio de 2009, estava meio bilhão de reais mais rico do que quando obteve, em 2003, através de um processo de chantagem, coação  e mentiras, o arrendamento da marca Gazeta Mercantil por 60 anos...

        Basta observar que ele produziu uma redução brutal na folha de pagamento – uma folha que já custara mais de 200 milhões de reais/ano durante a gestão Levy e que na fase de Tanure, tendo em vista que ele, como prometera, não trabalhou com CLT, caiu para menos de 20 milhões/ano...

        Levou ao extremo a cultura do “não pagar”, sequer reembolsava despesas de viagem, trabalhou todo tempo de costas viradas para as leis do país – trabalhistas, tributárias, previdenciárias...

        Dava a todo instante o drible da vaca em Levy e não cumpriu sequer um terço dos compromissos que assumiu pelo contrato de arrendamento...

        Até onde se sabe,  deixou de receber as verbas da publicidade legal (publicação de balanços, editais e atas exigida por lei no caso das empresas de capital aberto) das empresas estatais – cerca de 20 milhões/ano – porque os credores em ações trabalhistas as interceptaram na boca do caixa.

        Mas isto não fez falta, por certo... Mesmo tendo perdido, em função da crise, uma fatia razoável da publicidade legal, a Gazeta continuou a oferecer ao gestor a generosa receita de cerca de 100 milhões de reais/ano vinda da publicação de balanços e editais pela iniciativa privada... Eram valores mais do que suficientes para o abutre saciar a fome e  tocar a sua gestão, medíocre, mas altamente lucrativa...

AVAL DO PT

        A gestão Tanure foi a excrecência da excrecência do capitalismo. E serve para demonstrar o quanto foi falsa e demagógica a Era PT.

        Ela, a gestão Tanure, nasceu e terminou no governo de Luiz Ignácio Lula da Silva (2003 a 2011). Tanure anunciou diante de mais de duzentas testemunhas que não trabalharia com CLT... Prometeu e cumpriu, sem ser incomodado por um governo que tinha raízes profundas no trabalhismo...

        Além disso, Tanure foi o herdeiro e sucessor legal de Luiz Fernando Levy, que havia acumulado uma dívida portentosa com todas as instituições do governo – fiscais e previdenciárias... Levy chegou a dizer, publicamente, que o governo era o grande financiador do projeto de expansão de sua empresa, já que não pagava seus compromissos com instituições governamentais...

        Tanure passou sete anos à frente da Gazeta Mercantil e, simplesmente, deu continuidade à afronta sem ser incomodado...

        E o que é pior: representado pelo mais importante de seus ministros, o então poderoso Zé Dirceu, o governo Lula avalizou a gestão Tanure. Zé Dirceu comparecia a eventos promovidos pela Gazeta Mercantil e, como farinha do mesmo saco, tornou-se amigo de Nelson Tanure.

        Diria que tinham grandes afinidades no mundo dos negócios.

        Afastado do governo por envolvimento no escândalo do mensalão, foi Zé Dirceu – então como “consultor empresarial” – quem apresentou Tanure ao dono da Editora Três, Domingo Alzugaray (falecido em junho deste 2017)... Não por acaso, a Editora Três – proprietária da Revista Isto É – já disparava também aquele aroma típico de uma empresa falimentar, forte atração para abutres do tipo de Nelson Tanure...

        Tendo o “consultor” Zé Dirceu como intermediário, Tanure entrou em negociação com Alzugaray. Já deveria ter tudo planejado: aplicaria à Editora Três o mesmo formato empregado no “arrendamento” da Gazeta...

        Mais esperto que Levy, Alzugaray pulou para trás na última hora. Aproveitou e pediu ajuda ao “consultor-intermediário” para sair da crise... Pediu e conseguiu... A crise da Editora simplesmente evaporou... E onde será que Zé Dirceu foi arranjar dinheiro pra socorrer Alzugaray ?

        Não se sabe ao certo, mas duas coisas ficaram evidentes nessa época: Zé Dirceu começou a mandar na “Isto É” bem mais que o próprio dono e, mesmo após seu afastamento do governo, sua influência nele era enorme... Quem apostar que Alzugaray obteve socorro num dos bancos governamentais terá grande chance de acertar.

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RECOLHIDO NOS FÓRUNS

        Depois de arrendar a marca de seu jornal a Nelson Tanure, Luiz Fernando Levy achou que poderia manter de pé, cheios de vida, os dois Fóruns de Líderes – o de Líderes Empresariais e o de Líderes Sociais – mesmo sem o apoio que sempre receberam da Gazeta Mercantil.

        Bem antes de morrer, em outubro deste 2017, deve ter descoberto – ou pelo menos suspeitado – de que este era mais um de seus delírios: com a crise que abalou o jornal, os Fóruns estremeceram; com a continuidade da crise, começaram a definhar e, quando em maio de 2009, a Gazeta deixou de circular, os Fóruns morreram. E eu já não estava mais lá, nem pra chorar, nem pra lamentar...

        Quando, em 2004, aceitei o convite de Levy para dirigir o Fórum de Líderes Sociais, o outro Fórum, o de Líderes Empresariais, funcionava em Belo Horizonte. Suas atividades – a organização de eventos e a edição de uma revista, trimestral – foram levadas para Minas Gerais para facilitar a vida do seu então presidente, o economista e pensador Lucio Marcos Bemquerer.

        O Fórum Empresarial, conhecido pela sigla FLE, já fora uma entidade importante. Aglutinava sempre a nata da nata do empresariado brasileiro. Nomes como Antônio Ermírio de Moraes, Abílio Diniz, Cláudio Bardella, Jorge Gerdau Johampeter, José Mindlin, Luiz Fernando Furlan, Olavo Egydio Setubal, Rinaldo Campos Soares se mantiveram em seu Conselho Consultivo até os últimos dias.

        Na década de 1970, os conselheiros do FLE redigiram um documento em favor da democracia que impactou o processo de abertura política do regime militar.

        Hermann Wever, o presidente da paulistana Siemens do Brasil, substituiu Lucio Bemquerer na presidência mas ainda assim as atividades do Fórum se mantiveram em Belo Horizonte.

        Nelson Tanure já imperava na Gazeta e o jornal reduzia, substancialmente, sua ligação com os fóruns, enquanto os conflitos entre Levy e o novo gestor do jornal aumentavam. Aos poucos, Tanure radicalizava a sua “cultura do não pagar”.

        Talvez fosse apenas paranoia, mas Levy começou a temer que lhe aplicassem um golpe e tomassem dele também a gestão dos Fóruns. Agiu rápido: destituiu Hermann Wever do Cargo e nomeou o então presidente da Serasa, Elcio Anibal de Lucca... (na fase terminal do Fórum e da Gazeta, Elcio seria substituído por Ozires Silva)...

        Em seguida, trouxe as atividades do FLE para São Paulo: queria estar perto de tudo para se sentir confiante...

        Entregou-me a edição (mensalizada) da revista Fórum de Líderes como atividade paralela à direção do Fórum de Líderes Sociais... Acertamos, claramente, mais uma remuneração pela nova atividade... Deixei claro para ele que mesmo somando as duas remunerações não atingia o salário que eu estaria recebendo pela Gazeta Mercantil.

ENFIM, UMA ATIVIDADE AGRADÁVEL

        A edição da Revista Fórum de Líderes foi das poucas atividades que me deram prazer nos meus oito anos de Gazeta Mercantil. Fiz entrevistas e editei reportagens memoráveis...

        Fui talvez um dos primeiros jornalistas a entrevistar Roberto Rodrigues, tão logo renunciou ao Ministério da Agricultura... Produzimos um claro entendimento das razões que o levaram a deixar o governo Lula e avançamos em informações que permitiram prever o boom do agronegócio que o país passaria a viver em seguida...

        Entrevistei Roberto Romano, professor e filósofo da Unicamp, que previu a imersão do Brasil na avassaladora crise Ética dos dias atuais... A meu pedido, a jornalista  Ruth  Helena Ballinghini, especializada em Ciência, fez uma entrevista de impacto com a geneticista Mayana Zats com explicações didáticas sobre a diferença entre células-tronco e células-tronco embrionárias, compreensão capital para o entendimento dos avanços do uso da genética  em tratamento de doenças crônicas e lesões medulares...

        Na primeira edição da nova fase, a revista publicou extensa reportagem, produzida pelo jornalista Lucas Tavares, então residente em Santiago, sobre a enigmática vitalidade da economia chilena... Lucas ouviu praticamente todos os mais expressivos economistas chilenos, inclusive vários dos Chicago’s Boys, como eram chamados os jovens egressos da Universidade de Chicago, que sob o mando do tenebroso Augusto Pinochet, impuseram ao Chile uma experiência radical da teoria neoliberalista... Se foi guardada  em alguma biblioteca, essa revista deve ser fonte obrigatória de consulta a quem quiser entender porque o Chile tem dado tão certo...

DOIS GRANDES ARTISTAS

        Foi também durante o trabalho de edição da Fórum de Líderes que eu conheci e aprendi a admirar Jô Acs e Mozart Acs, pai e filho, dois artistas gráficos simplesmente geniais. Eles me foram apresentados pelo amigo Antonio Carlos Baumann e me acompanharam do começo ao fim da jornada pelo Fórum...

        Aprendi com eles que arte gráfica em revista e internet é coisa especializada e séria... Por mais ferramentas de ajuda que a internet nos oferece hoje em dia, não se deve improvisar... Um site e uma revista feitos por amador, terão sempre cara de amador...

        Lembro-me que Levy era sempre tomado por uma forte expectativa nos dias que antecediam a chegada de uma nova edição da revista... Sempre vinham me contar que ele apanhava um exemplar, folheava, sorria e fazia sinais de aprovação com a cabeça... Nunca me fez – seu estilo – elogios rasgados pelo trabalho, mas também nunca fez nenhuma queixa por algo que o desagradasse, a não ser uma vez, na fase final do meu trabalho ao lado dele...

        Ele me pedira para entrevistar o dono do Rubaiyat, seu amigo Belarmino Iglesias (falecido também neste 2017)... Fiz a entrevista e me encantei com o personagem... Contei com emoção a saga do garçom espanhol que desembarcara ainda jovem no porto de Santos, sem dinheiro no bolso, e se transformara no dono de uma das redes de restaurantes mais sofisticadas do mundo, com três lojas em São Paulo, todas em bairro de elite, uma em Buenos Aires (foi ele que apresentou a picanha aos argentinos) e outra em Madrid, na Espanha...

        A revista circulou e eu na primeira oportunidade perguntei a Levy:

        - Viu a matéria do Belarmino? Gostou ?

        Ele:

        - Vi... Ficou boa. Faltou o “i” do Rubaiyat, né? É um erro que não pode acontecer...

        Liguei meus radares... Comecei a me lembrar com mais frequência do  que me dissera meu saudoso amigo Cláudio Lachini tão logo soube que eu iria trabalhar em linha direta com Levy:

        - Fique esperto! Quando menos esperar, ele lhe trai... Trair faz parte da índole deste senhor!

        Uma semana depois, eu e Levy fomos almoçar com Belarmino Iglesias no Rubaiyiat-Porto, em São Paulo. Levy havia me pedido pra escrever um livro sobre a campanha, liderada pela Gazeta Mercantil, que introduziu o novilho precoce no Brasil. Belarmino Iglesias havia sido um importante personagem da campanha e Levy queria que tivéssemos uma primeira conversa pra acertar detalhes de uma entrevista mais longa, para o livro... Fiquei impressionado com o modo gentil com que Belarmino Iglesias me tratou  durante todo o almoço... Saí do restaurante ao lado  dele, abraçou-me para dizer ao pé do ouvido:

        - Foram as melhores palavras que já escreveram sobre mim durante toda minha vida...lindas, lindas, lindas !

        E eu que pensei que ele iria reclamar da falta do “i”...

E APARECE O VERDADEIRO CARÁTER

        Já em agonia, os Fóruns foram transferidos para uma sala apertada de uma torre comercial pertencente a um dos amigos de Levy numa travessa da avenida Engenheiro Luiz Carlos Berrini (SP)....

        O aperto, para azar do patrão, não comportava segredos e nem cochichos...De modo que eu ouvi tudo, desde o momento que ele, Levy, ordenou a dois de seus capachos, o ex-cunhado Gustavo Aranha entre eles, a me espremer para forçar minha saída até a comemoração – “Ótimo, ótimo!” – ao receber a  informação de que eu havia capitulado...

        Se recusavam a admitir que eu havia combinado com Luiz Fernando Levy uma remuneração extra pela edição da revista embora todos pudessem observar que as atividades do Fórum Social nunca sofreram interrupção... Coisas de gente sem caráter...

        No fundo, caí em desgraça com Luiz Fernando ao contrariar, por puro profissionalismo, o interesse na revista de um de seus chupins familiares... Foi o que aconteceu...  


Belarmino Iglesias


 Restaurante Figueira Rubaiyat

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